Viva: A Vida é uma Festa

Viva: A Vida é uma Festa

A relação infantil com a morte é um tabu na nossa sociedade urbana; fora alguns casos em que os pais deixam clara a única certeza da vida ou em regiões mais violentas (e em sua maioria pobres) que a morte está ao pé da porta diariamente, é muito mais percebida no interior uma relação natural, onde corpos dos entes queridos muitas vezes são ainda velados em casa, em meio aos olhares dos menores.

O que é uma história mexicana sem dramas e surpresas, não é mesmo?

Lembro que quando Festa no Céu (2014), animação em que nos é apresentado o Dia dos Mortos Mexicano, foi lançado, li em uma crítica a preocupação do autor a respeito do modo alegre que o mundo dos mortos (ou dos lembrados) foi exibido para as crianças. Três anos depois, chega pela Disney/Pixar a animação Viva: a Vida é uma Festa, que consegue trabalhar o contexto espinhoso com o pé nas costas, trazendo uma trama sobre perdão, família e obstinação.

E comparando as duas animações, por beberem da mesma vertente, é possível perceber semelhanças que tornam um desafio para a Pixar desvencilhar: a principal é a questão da tradição familiar; Miguel vem de uma geração de sapateiros que ojeriza a música, assim como a de Manolo no filme de 2014, onde a relação musical também é conflituosa. Mas, enquanto o primeiro utiliza da cultura Maia mais cultura pop para desenvolver um panteão e trabalha nos pontos visuais da cultura mexicana (graças ao olhar de Guilhermo del Toro no projeto), Viva consegue manter-se objetivo e arranca uma trama mais complexa e interessante, com direito a duas reviravoltas seguidas no início do seu terceiro ato, afinal o que é uma história mexicana sem dramas e surpresas, não é mesmo?

Adentrando no plano visual, Viva é deslumbrante pelo uso de uma paleta de cores complexa por sua diversidade e como luzes de Natal, acendem e apagam nos momentos certos para traduzir singificado. Observe o uso do laranja, que liga o mundo dos vivos e dos mortos não só pelas pétalas que formam a ponte, mas pela iluminação que o México ganha, além da sua composição com o azul que vimos em Mad Max (2016) como tal junção é visualmente poderosa. E pelo venenoso e diabólico verde invadindo a cena em que Miguel descobre a verdade sobre Ernesto.

Voltando à comparação das duas animações, Viva permitiu-se ser mais autêntico que Festa: ancorado em dois cronômetros, os roteiristas Adrian Molina, Lee Unkrich (também diretores), Matthew Aldrich e Jason Katz traçam a odisséia de um dia de Miguel (a transformação) e Hector (o esquecimento, apresentando de forma bastante dramática). Embora a aventura seja centralizada em personagens masculinos, é relevante citar o grande poder das mulheres, demonstrando a cultura matriarcal familiar. A experiência flui, mesmo apresentando uma quantidade massiva de conhecimento sobre a data, com espaço para brincadeiras como a presença de Frida Kahlo e El Santo, o Superman mexicano e conhecido por muito poucos no Brasil.

Divertido e instigante, Viva não chega a ser a melhor produção da Pixar, ainda mais num universo que temos Carros e Aviões, porém é uma jogada honesta e que pode pertencer ao mundo dos lembrados sem problema.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Viva - A Vida é uma Festa


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO:
ESTREIA: 16 de outubro de 2018
DIREÇÃO: Lee Unkrich, Adrian Molina
ELENCO: Benjamin Bratt, Gael García Bernal, Renee Victor
SINOPSE: Apesar da proibição desde gerações da existência um músico na família, Miguel sonha em se tornar um como seu ídolo, Ernesto de la Cruz . Desesperado para provar seu talento, Miguel encontra-se no mundo impressionante e colorido dos mortos em uma cadeia misteriosa de eventos. Ao longo do caminho, ele encontra Hector, um charmoso malandro e juntos, partem em uma viagem extraordinária para desvendar a verdadeira história por trás da história da família de Miguel.