Vingança

Vingança

Certas vezes os críticos, numa ânsia ao pretender reduzir um certo movimento segundo eles fadado ao fracasso, utilizam da sua criatividade e cunham um irônico nome. Aí o tiro sai pela culatra. Consigo lembrar de dois casos assim: o do jornalista Hagamenon Brito, que criou o termo Axé Music para denominar o ritmo oriundo da Bahia (visto até no documentário Axé: Canto do Povo de um Lugar), e o segundo exemplo malfadado é do crítico da Artforum James Quandt, que a perceber um número expressivo de filmes franceses transgressores na virada do século XIX, deu o nome de Novo Extremismo Francês. Porém, no seleto grupo, existem talentos como Gaspar Noé, François Ozon, Leos Carax entre outros. E, obviamente, muitos outros novatos vieram na esteira, criando filmes que rememoram os exploitations setentistas americanos, mas numa verve muito mais violenta.

E cá estamos com um belo espécime: Vingança, primeiro trabalho da talentosa diretora Coralie Fargeat que consegue aliar elementos sinestésicos tal qual Danny Boyle em 127 Horas abarcados por um roteiro simples e sintético – também dela.

A sinopse é simples: três sócios encontram-se para uma caçada anual em um deserto pedregoso. A amante de um deles desperta excitação nos demais e a coisa degringola para uma caçada humana regada a sangue, vísceras e sujeira. Há no primeiro ato um subtexto trazido por Fargeat tornando tudo aparentemente descartável e, de certo modo, fetichista: o helicóptero trazendo a Lolita e seu lindo namorado, a predileção por roupas rosas,  o pirulito. Elementos que remetem a um universo semelhante ao de Amores Canibais (2016), onde os devoradores de carne humana vivem num universo hedonista de culto ao corpo e igualmente com uma fotografia saturada aliada a uma trilha moderninha de Robin Coudert (Amaldiçoado). O fetichismo aqui é presente no corpo da protagonista, que é explorado pela câmera mesmo com feridas, mutilações e queimaduras; e há o do seu algoz, com direito a nu masculino frontal e tomadas em que você praticamente decora a forma das suas nádegas.

o exagero é percebido aqui como um espectro de fetichização, tal qual os porn tortures

A problemática ocorre devido aos dois personagens que não encaixam-se em padrões de beleza perpetram o crime em maior e menor nível – o estupro realizado por Stan (Vincent Colombe) e a conivência de Dimitri (Guillaume Bouchède), o que não quer dizer que o adônis interpretado por Kevin Janssens não seja igualmente cruel, afinal ele atira a suposta fútil Jen (Matilda Lutz) para a também suposta morte no despenhadeiro, como a “fraternidade” existente no universo machista em detrimento da mulher.  Há de salientar a “coincidência” no nome da protagonista a um clássico do gênero dirigido por Meir Zarchi, A Vingança de Jennifer, onde uma mulher é brutalizada repetidamente por um grupo de homens, abandonando-a para morrer e esta retorna em uma vingança contra seus atacantes. Embora no filme de Zarchi, as cenas de estupro sejam tão horrivelmente estendidas quanto a de Irreversível de Gaspar Noé; aqui a situação não é menos horripilante, assim como é nojento o descaso de Richard (Janssens) à situação vivida por sua amante, arrematada pelos argumentos de “eles vão pedir desculpas”, “eles não resistiram porque você é muito bonita” e “botei um dinheiro na sua conta”.

Falando mais sobre a fotografia de Robrecht Heyvaert, embora ele trabalhe por boa parte com a dualidade entre o laranja e azul (que já foi trabalhado à exaustão inclusive por filmes muito bons como Max Max: Estrada da Fúria), ele mescla o ambiente com o uso de um filtro amarelo, que deixa tudo mais agitado e perturbador. É divertido também o uso das janelas coloridas, onde começam e terminam o filme: na chegada dos sócios na casa, é possível ver Jen sob o vidro rosa dentro da casa; e no terceiro ato é Richard sob a visão do vidro azulado e do lado de fora. Essa rima reforça a relação protagonista x antagonista. Esse simbolismo acompanha os personagens até o fim, com Jen utilizando sua cor nas unhas e brinco, e Richard na jaqueta. Pode-se dizer que o mundo machista de Richard é muito maior e opressor, já que o azul do céu sempre está presente e acima, embora de moro passivo na trama, demonstrando que, infelizmente, mesmo com o desenrolar da trama, ainda é um “mundo de homens”. 

O uso de metáfora vai além da fotografia: no primeiro ato, antes do foreshadowing (ferramenta narrativa que dá dica ao espectador sobre o que está por vir) do peiote, há a maçã, seu apodrecimento e a formiga, rimando com o empalamento da personagem. Divertida é a sutileza em escolher a maçã verde, onde parte da ideia de pecado católico é retirada da fruta apenas pela opção de não ser vermelha. Outro momento marcante é a pequenez de Richard diante da verdade de ser o único sobrevivente – por hora – da vingança de Jen, em que está acompanhado apenas dos veículos vazios, os três ocupando a tela.

Auxiliada por uma montagem eficiente, a diretora usa o mesmo artifício de Boyle em seu filme de sobrevivência para auxiliar metaforicamente o espectador; o efeito fica mais divertido na “ressaca” do peiote, resultando nos repetidos e aterradores sonhos de Jen. Falando em aterrador, como o filme de exploitation que é, Vingança não tem problemas em abraçar o gore, com cabeças explodidas, feridas gigantescas e cauterizações bisonhas. O faz até com certa competência, onde a câmera foca em momentos agoniantes, como arrancar um caco de vidro do pé. Existem, claro, alguns excessos, como a sangria dos personagens que assemelha-se a um Cavaleiro do Zodíaco, mas o exagero é percebido aqui como um espectro de fetichização, tal qual os porn tortures como Jogos Mortais e O Albergue, tão evidentes na primeira década dos anos 2000. Por pouco o terceiro ato não joga sangue no rosto do público.

Abandonando sua plasticidade para atingir um ápice cru, tenso e brutal, Vingança apresenta-se como um divertido destaque francês no gênero; não de modo intimista como Raw (lançado em 2016, mas com percebido por aqui em 2017), entretanto, proporcionalmente perturbador.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Vingança


PAÍS: FRA
CLASSIFICAÇÃO: 18 anos
DURAÇÃO: 108
ESTREIA: 19 de janeiro de 2019
DIREÇÃO: Coralie Fargeat
ELENCO: Matilda Anna Ingrid Lutz, Kevin Janssens, Vincent Colombe
SINOPSE: Uma garota é levada para uma casa com três homens ricos e casados e luta pela sua sobrevivência.