Vingadores – Guerra Infinita

Vingadores – Guerra Infinita

Se o primeiro longa da franquia dos super-heróis mais poderosos da Terra era um filme sobre união, em Vingadores – Guerra Infinita vemos o contrário. Com um time dividido por uma recente guerra civil, os heróis da Marvel se dispersam em diversas localidades do universo para combater aquele que seria o grande vilão desses 10 anos de universo cinematográfico: Thanos (Josh Brolin de Ave César!). E é sobre ele e sobre sua jornada do “anti-herói” na busca das seis jóias do infinito que consiste a narrativa do filme mais sombrio da casa das idéias.

Guerra Infinita deslumbra com sua magnitude, seu tom épico […]

Sem grandes necessidades de se investir tempo de tela para relembrar ao espectador cada uma das linhas narrativas passadas, pressupondo que estes já estão embasados pelos 18 filmes anteriores da mega-franquia (veja nosso especial) , os irmãos Russo te arremessam nessa nova aventura no meio do caos, sem pena de poupar a vida de seus personagens ou com as consequências futuras de suas escolhas. A sensação é de desorientação; e essa é a melhor maneira de apresentar um personagem denso e complexo como Thanos, que em 10 minutos de filme já convence com sua seriedade, poder e inteligência. A potência de suas cenas de ação e a precisão de seus golpes – principalmente em lutas contra personagens como o Hulk – dão um norte para que seja possível compreender a dimensão do seu perigo, auxiliando ainda mais na atmosfera de urgência que impregna o resto de sua duração. A crença em seu plano também se torna um elemento-chave para a criação de um vilão tridimensional, e seus discursos filosóficos são tão verdadeiros a ponto de conseguir convencer parte considerável da plateia a ficar do seu lado.

Sim, Thanos é o verdadeiro protagonista de Guerra Infinita. Não por estar “certo” – essa noção é debatida pelo próprio filme – mas por ser o personagem que tange as narrativas de todos os outros e o que mais age ao invés de reagir. Seus conflitos internos, suas dúvidas e desafios emocionais não são julgados pela direção do filme, que claramente nutre um olhar carinhoso em cima do Titã Louco, assumindo um tema musical recorrente para seus momentos de conquistas e derrotas bastante agridoce através de violinos raros na obra do compositor Alan Silvestri. Escolhas como essa, arriscadas pela linha tênue onde o botão do “brega” pode a qualquer momento ser apertado, são feitas aqui sem pudor, e o uso de monólogos vilanescos e fusões em determinados pontos da montagem de suas cenas, causam uma estranheza necessária para a criação de uma personalidade própria para o filme.

Existe um tom pessimista que se arrasta por todas suas tramas, que nos remete a uma das maiores “Bíblias” do mundo dos quadrinhos: Watchmen. A falta de maniqueísmo, as escolhas do roteiro em relação ao destino de seus personagens, a quebra de sua temporalidade para inserções de flashbacks arbitrários e pontuais e os diálogos internos representados por cenas em um plano “irreal”, tudo isso não apenas nos remete à graphic novel de Alan Moore, mas retira Guerra Infinita do risco de cair em um lugar pasteurizado do clichê do filme de super-herói atual. Até as lutas, constantemente genéricas e cortadas aleatoriamente no subgênero, aqui causam interesse pela coreografia de seus movimentos, que o tempo todo relembram aspectos internos de seus personagens, sejam essas características externas ou até mesmo informam sobre a progressão emocional de seus estados. Os destaques nesse quesito ficam para o núcleo de Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e Homem-Aranha (Tom Holland), que criam uma sinergia preciosa entre seus diálogos divertidos e afiados, além de nos brindar com imagens plasticamente lindas em suas batalhas.

Há uma escolha consciente e sensata de encurtar algumas tramas, deixando-as objetivas e econômicas, como os arcos dos Vingadores Secretos, deixando Capitão América (Chris Evans), Viúva Negra (Scarlett Johansson), Máquina de Combate (Don Cheadle) e Falcão (Anthony Mackie) como soldados prontos para batalha, mas sem a carga emocional ou o destaque visto para eles em filmes anteriores. O peso de Steve Rogers é resumido ao seu semblante sério e cansado, além de sua barba fechada e uniforme completamente escurecido, um contraste alto com a figura colorida e otimista vista lá em 2012 em Os Vingadores. Já o cabelo da Viúva Negra, que transitava entre o ruivo e o castanho, o encaracolado e o liso, de filme a filme, agora muda de vez para um platinado carregado de frieza, assim como no caso de Rogers, uma consequência lógica aos eventos não apenas de Guerra Civil e aos anos de clandestinidade, mas ao próprio rompimento brusco de sua relação com Bruce Banner (Mark Ruffalo).

É possível identificar um inchaço inevitável nas mais de duas horas e meia de projeção, dada a proporção ambiciosa nas quatro linhas narrativas que correm paralelamente. A necessidade de uma economia na duração se demonstra difícil nesse intercalamento entre algumas sequências por uma perceptível falta de respiro em determinados momentos. Não há muito espaço para contemplar ou para contabilizar alguns acontecimentos mais intimistas ou chocantes, que são atropelados por mais cenas de ação, mesmo que eles em si sejam poderosos em sua concepção. O longa exaure o espectador, que busca ter um olhar clínico em cima das referências e das diversas pistas deixadas propositalmente em tela, se tornando um filme que funciona pouco isoladamente, mas marcando um grande clímax dessa macro-história contada em quase vinte capítulos.

Guerra Infinita deslumbra com sua magnitude, seu tom épico, e se revela como um grande almanaque colecionável, um filme graphic novel que costura esse universo invejavelmente bem estruturado pela Marvel Studios. Mais um grande filme de ação encabeçado pelos irmão Russo, que mesmo aquém à irreverência entregue em Capitão América – O Soldado Invernal, luta bravamente para fugir do óbvio e do repetitivo, mesmo que peque em determinados pontos pela falta de riscos em seu roteiro e por uma conveniência excessiva que estimula o ritmo do filme em detrimento de sua própria costura. Todas as peças parecem estar no lugar certo, na hora certa, sendo essa ao mesmo tempo, a maior qualidade e o maior defeito do filme.

Klaus Hastenreiter
Escrito por Klaus Hastenreiter

CEO BITCH na empresa Olho de Vidro Produções, ator, cineasta, crítico e fofo.

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Vingadores: Guerra Infinita


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO:
ESTREIA: 20 de outubro de 2018
DIREÇÃO: Anthony Russo, Joe Russo
ELENCO: Chadwick Boseman, Letitia Wright, Danai Gurira, Tessa Thompson, Scarlett Johansson, Karen Gillan, Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth, Chris Pratt
SINOPSE: Os Vingadores e seus aliados devem estar dispostos a sacrificar tudo em uma tentativa de derrotar o poderoso Thanos antes de seu bombardeio de devastação e ruína por fim ao universo.