Tungstênio

Tungstênio

Um misto de raiva e decepção foram minhas emoções ao sair da projeção de Tungstênio, oportunidade desperdiçada de Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo, Nina, À Deriva) na direção do filme baseada na premiada obra de Marcello Quintanilha; mas o que fazer uma vez que a fidelidade é o que lhe derruba tal qual uma rasteira?

Há outras obras cuja adaptação literária consegue grandes feitos, como Persépolis (2007), onde a criadora Marjane Satrapi divide a direção com Vincent Paronnaud – e também foi roteirista, estando na incumbência de saber o que cortar e o que manter em sua obra autobiográfica.

Não era um desafio fácil: pela história episódica da obra de origem, o filme necessitava de certo estofo para conseguir a minutagem tão esperada de um longa. Ademais, quatro personagens tem a mesma atenção do autor. E o problema em não diferenciar o ferramental de uma mídia e sua aplicação em outra derruba o filme, utilizando elementos que já foram vistos e revistos no cinema nacional depois de Cidade de Deus de uma maneira irrelevante, parecendo optar por esse ou aquele recurso como apreço estético.

O uso das cores turquesa e laranja, embora extremamente batidas, dão uma plasticidade ao filme por serem cores bem próximas da complementaridade, o que acarreta num bonito contraste, tal qual Mad Max: Estrada da Fúria e o recente francês Vingança. Acrescenta-se ao uso da fotografia saturada, impondo angústia junto com a câmera na mão e os planos fechados nos rostos dos personagens, mas passar uma hora de forma desnecessariamente tensa, cansa. Alia-se ao uso de Milhem Cortaz (o Capitão Fábio em Tropa de Elite) como narrador universal, cujos freeze frames (quanto a cena congela) são anti-climáticos, podando o desenrolar da história. Nessa “boniteza”, o uso de ângulos não convencionais, girando a câmera em 90º e alçando um efeito de uma visão feita de modo vertical para um celular conferem uma divertida estranheza.

Existem outros erros mais “soteropolitanos” que não impedem a compreensão do filme, como a relação de espaço e tempo para uma pessoa que conhece os bairros presentes. Na ida de Cajú (Wesley Guimarães) com Bisonho (Juarez Alves) na Van, é perceptível que o caminho que eles fazem da Baixa do Fiscal (onde encontramos Zoinho, interpretado por Evaldo Macarrão) não bate com o trajeto obtido na montagem, tirando boa parte do espectador soteropolitano mais atento do filme.

Quem já leu o quadrinho mas sabe piamente que a leitura do mesmo não pode interferir na crítica, fica a sapiência de que podia ser feito; trabalhar de uma forma mais interessante a autoafirmação de Seu Ney (José Dumont) e a relação abusiva entre Richa (Fabrício Boliveira, de Faroeste Caboclo) e Keira (Samira Carvalho bento).

E é isso, Tungstênio mesmo com um material de origem desafiador, o elemento mais denso da tabela periódica nos deixa um gosto amargo.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Tungstênio


PAÍS: BRA
CLASSIFICAÇÃO: 16 anos
DURAÇÃO:
ESTREIA: 24 de setembro de 2018
DIREÇÃO: Heitor Dhalia
ELENCO: Fabrício Boliveira, Samira Carvalho, José Dumont
SINOPSE: Quando pessoas começam a utilizar explosivos para pescar na orla de Salvador, na Bahia, um sargento do exército aposentado, um policial e sua esposa e um traficante vão se unir e farão de tudo para acabar com esse crime ambiental.