Trama Fantasma

Trama Fantasma

Trama Fantasma é de longe o pior filme já realizado pelo brilhante Paul Thomas Anderson. A suposta maturidade artística do antes frenético autor/provocador que iniciou a carreira vendo a indústria pornô dos anos 70 sob o prisma da família disfuncional em Boogie Nights e fez chover sapos sobre Los Angeles em Magnolia chega à sua oitava obra apresentando algo pretendidamente inusitado, mas que não passa de um enfadonho longa tão interessante quanto ver agulhas passando por panos.

Como em todos os seus outros filmes, Trama Fantasma é calcado em conflitos advindos de visões de mundo opostas representadas por figuras que significam algo maior que seus personagens. Se o Freddie Quell d’O Mestre era a liberdade desnorteada e auto-destrutiva que tentava se adequar ao controle cínico da seita de Lancaster Dodd, aqui, Alma (nome nada sutil) com seus sentimentos à flor da pele sujeita-se à intransigente e eterna busca por perfeição do labor de Reynolds Woodcock (nome nada sério) na sua confecção de vestidos para a alta sociedade londrina e européia dos anos 50.

Trama Fantasma é a primeira evidência de que P.T. Anderson pode falhar artisticamente.

Anderson merece aplausos por nunca se repetir, e utilizar um fashion designer na Londres pós-segunda guerra é mais uma curva sinuosa em uma filmografia cada vez mais imprevisível. Em tese, todos os elementos que tornariam essa mais uma obra memorável para o diretor encontram-se em seus devidos lugares, mas não é preciso muito tempo assistindo-a para perceber o que está faltando: qualquer vestígio de originalidade, subversão de expectativas ou sequer personagens minimamente críveis. Lançado a apenas meses de distância de O Estranho que Nós Amamos e Lady Macbeth (obras superiores), Trama conta com o infeliz fato de coincidentemente aproveitar como ferramentas de reviravolta e desenvolvimento elementos já utilizados brilhantemente nos citados filmes acima, mas agora jogados num conflito principal tépido e que mal funciona mesmo que apenas na superfície.

Ainda que o roteiro não seja trôpego, mantendo a coerência de sua proposta do início ao fim, o maior problema está no fato do próprio longa ser flagrantemente construído como artifício para que ponto A de peculiar normalidade passe por B de reviravolta questionável e chegue em C de final supostamente perverso. Representações e metáforas surgem de forma quase formulaica dentro da lógica de autoralidade Andersoniana, como se significassem brilhantismo simplesmente por estarem ali, passando longe de dar a impressão de que estamos testemunhando personagens que deveriam agir como pessoas. Para piorar, o diretor parece cada vez menos confiante na inteligência do espectador. Se em seu longa anterior, Vício Inerente, o filme já vinha saturado de uma narração que servia tanto como mero ornamento reverencial a Thomas Pynchon como complicação e pura redundância de um filme já verborrágico, aqui temos desde os minutos iniciais a personagem de Alma discutindo com um personagem secundário algo totalmente óbvio sobre o sentido do filme e que dificilmente merecia uma explicação oral.

Já como graça salvadora do filme, há um trio competente à frente das câmeras, mas com ressalvas. Muito já foi dito sobre essa possivelmente ser a última perfomance de Daniel Day-Lewis no cinema, e o ator não faz feio, calculando seus momentos mais intensos e calmos com a competência que todos já esperam. Infelizmente, levando em conta que a parceria anterior entre P.T. Anderson e o venerado intérprete é nada menos que Sangue Negro (possivelmente um dos maiores filmes realizados no Séc. XXI), Trama empalidece em comparação. Como contraponto, Vicky Krieps e sua Alma consegue não ser ofuscada pelo ator, sustentando suas cenas com carisma e calor humano de forma curiosa, ainda mais quando as intenções de sua personagem são reveladas. Incompreensível é a Cyril de Lesley Manville ter sido indicada ao Oscar, numa interpretação longe de ser ruim, mas apenas monocórdia como fátua de cara fechada entregando falas passivo-agressivas.

Por fim, cai sobre os ombros do próprio realizador boa parte da chatice que é a obra. Com a condução narrativa mais quadrada de sua carreira, Anderson também teve a audácia de fazer a direção de fotografia do longa, o que pode ter sido um fator em entregar algo infinitamente mais contido do que o (seu) normal. Não que essa sobriedade não seja adequada, pois estamos lidando com um filme que trata sobre a busca por perfeição através de costuras e detalhismo chegando ao ponto da paralisia emocional. O problema reside no fato de que não há nada imaginativo ou subversivo no que está em tela. É uma provocação vazia, um filme belo que funciona quase sob a lógica de um desfile de moda e que requer aplausos por meia-dúzia de quadros e vestuário tão bonitos e inertes quanto trajes de gala cobrindo manequins numa sala vazia. Em seis minutos de videoclipe, o realizador já conseguiu fazer muito mais.

Tão solene e insossa quanta a profissão que retrata, Trama Fantasma é a primeira evidência de que P.T. Anderson pode falhar artisticamente; não por apresentar algo ruim, mas por simplesmente entregar algo muito abaixo de uma carreira até o momento composta apenas de pontos altos. É sempre um prazer ser brindado por um filme de alguém talentoso, mas que da próxima vez o cineasta consiga realizar algo maior que a própria vaidade de seus personagens com taras por tecidos.

Felipe Franca
Escrito por Felipe Franca

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Trama Fantasma


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 130
ESTREIA: 19 de dezembro de 2018
DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson
ELENCO: Daniel Day-Lewis, Lesley Manville, Vicky Krieps, Richard Graham
SINOPSE: Ambientada na Londres dos anos 1950, a produção resgata o glamour e a alta costura da época e apresenta a vida de Reynolds Woodcock, um estilista confiante e focado que tira inspiração das mulheres que, constantemente, entram e saem de sua vida. Acostumado a vestir a realeza, estrelas de cinema, socialites e damas, Woodcock vê sua trama perder o rumo quando se envolve com Alma (Vicky Krieps), uma jovem forte que logo se torna um acessório necessário para sua vida e carreira, como musa e amante.