Thor Ragnarok

Thor Ragnarok

Imagine que você esteja numa praia dos sonhos. Ao lado uma cerveja gelada – pra quem não bebe, que é o meu caso, pode ser outra coisa – e você adora um pastel. E você pede para vir aquela cestinha de pastéis amarelinhos, deliciosos, de queijo. Eles chegam, com aquele cheiro inconfundível, suculentos e casquinha crocante. Você dá a primeira mordida. O sabor é maravilhoso, mas não é do que você pediu. É camarão. Eu gosto de camarão, e não vou devolver a cesta. Mas não é queijo.

E fui ver Thor Ragnarok. É bom. Mas não é Thor.

Dirigido por Taika Waititi, que tem o filme – presente na Netflix – O que fazemos nas Sombras, assim como a série Flight of the Concords como seus maiores trunfos, já era esperada tal abertura para suas experimentações, ainda mais pelo sucesso do uso da comédia em Guardiões da Galáxia Vol 1 e Vol 2 (estes já pertencentes a James Gunn) e, somado com uma franquia de um herói que pagava as contas, mas não era um dos arroubos de bilheteria que a Marvel Studios se – mal – acostumara.

A terceira aventura “solo” do Deus do Trovão (Chris Hemsworth) vem após os acontecimentos de Os Vingadores: a Era de Ultron, onde ele decidiu investigar sobre as pedras do infinito, elementos de raro poder que estão espalhadas pelo universo. Ao mesmo tempo sabemos que Loki (Tom Hiddleston) comanda Asgard simulando o seu pai, Odin (Anthony Hopkins) sem perceber que um mau presságio chegará e abalará a vida de todos: o Ragnarok, profecia nórdica que representa o apocalipse asgardiano.

É bom. Mas não é Thor.

O filme é dinâmico e divertido, aproveitando-se das comédias físicas e de situação. Embora não sejam potentes o bastante para gargalhar horrores e serem lembradas após uma semana, as piadas que incidem uma após a outra abrem um sorriso de canto de boca bem gostoso (a ideia de formar uma equipe com o nome “Vingativos” é engraçada só de citar aqui). O problema da escolha da comédia para guiar a narrativa durante as pouco mais de duas horas, que passam voando, foi o sacrifício dos perfis já estabelecidos dos personagens. Todo verniz shakespeariano de Loki e Thor tão enfatizado no primeiro episódio da franquia foi abandonado: aqui, Thor torna-se um guerreiro bonachão – com um ótimo timing de comédia – e Loki um sobrevivente. Até a vilã Hela (que Cate Blanchett executa como se fosse um passeio no parque) é carregada nas ironias, que deixam a personagem menos temível. Hulk, agora mais inteligente, também é um elemento cômico, funcionando como um bully. Creio que o único que não sofreu dessa esquizofrenia em prol da comédia foi Heimdall, interpretado por Idris Elba.

Tecnicamente, é vistoso, com elementos que fazem ligação direta aos traços de Jack Kirby, um dos mais proeminentes ilustradores do herói. As cores, com mais ênfase nos aterros do planeta Sakaar, são organizadamente plurais, tornando o filme um possível representante no Oscar de Melhor Direção de Arte. A trilha peca pelo excesso de sintetizadores que sempre gritam, sempre evocam anos oitenta: se o som fosse personificado, essa pessoa usaria ombreiras, tal qual a Xuxa – não duvidaria se a Xuxa dos anos oitenta fosse a trilha de Thor.

Mas além da comédia – desmedida – há coisas bem legais: é muito bom ver o universo imaginado por Stan Lee nos idos da Marvel integrado (a cena de Loki e Thor no Sactum Sanctorium que abriga o Doutor Estranho interpretado por Benedict Cumberbatch é tão divertida quanto a presença de Stan Lee, já notória.

Thor Ragnarok torna mais desafiador o modo como a Marvel Studios vai juntar essa miríade de personagens ditada por gêneros dava vez mais adversos em Guerra Infinita, momento que tem tudo para ser dramático. Isoladamente, também é entendível a proposta do excesso de piadas, do excesso visual, do excesso do excesso a ponto de tornar a experiência tão flamboyant quanto o personagem do Jeff Goldblum (ótimo no papel do líder de Sakaar), mas lembrando o que Síndrome, o antagonista de Os Incríveis (2004) sabiamente fala: quando todo mundo é super-herói, ninguém mais é, ou seja, quando tudo grita para chamar a atenção resulta que nenhum momento do filme é realmente marcante. Vide o caso.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Thor: Ragnarok


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO: 12 anos
DURAÇÃO:
ESTREIA: 19 de janeiro de 2019
DIREÇÃO: Taika Waititi
ELENCO: Chris Hemsworth, Jaimie Alexander, Tom Hiddleston
SINOPSE: Thor tem que confrontar os deuses dos deuses quando Asgard aproxima-se do Ragnarok, o apocalipse nórdico.