T2 Trainspotting

T2 Trainspotting

O primeiro passo para reconhecer o feito de Danny Boyle em T2 Trainspotting é ignorar seus exageros visuais e narrativos. Ultrapassando qualquer firula técnica, é admirável o fato de termos aqui algo não apenas digno da obra que lhe deu origem, mas que sabe celebrá-la e evoluí-la sem abandonar seu espírito.

Assim como o Trainspotting de 1996 acertou em emancipar-se do romance homônimo no qual foi baseado sem perder sua identidade (ampliando-a, na verdade), T2 ignora quase completamente a sequência literária Pornô, acertando em focar no filme existente como seu ponto de partida e chegada.

Trainspotting nunca foi (apenas) sobre junkies. É, principalmente, uma obra universal sobre uma sociedade viciada e dependente de rotinas e mesquinharias disfarçadas sob o manto da normalidade. Fugindo do coitadismo e realismo social denunciante, a provocação de humanizar viciados em heroína e suas motivações (ou falta delas) de forma irreverente entrou para a história do cinema não só pela subversão, mas por mostrar uma realidade exagerada com fina ironia e uma lógica desconcertante. Alguns escolhem a vida, outros escolhem a heroína. Como lidar com isso outra vez?

Desde os momentos iniciais deixando clara sua natureza nostálgica, T2 demora a decolar, talvez justamente por essa tentativa de diferenciação; Trainspotting era um filme que começava sua corrida inconsequente e narração verborrágica de forma impactante, como um jovem desesperado, disparado e sem aparente destino numa fuga intensa ao som de Iggy Pop e sem medo de ser atropelado no caminho. O ritmo agora é outro, a corrida numa esteira, ambiente controlado e cercado de fluorescentes. A ordem da vida escolhida e estabelecida. Não a toa, o que leva Renton (Ewan McGregor) a recordar é uma queda. A queda leva ao passado. Lá embaixo, encontra-se a antiga vida, além das decisões que o levam aonde chegou.

Em questão de segundos somos reapresentados a Spud (Ewen Bremner, de Êxodo: Deuses e Reis), Sick Boy (Jonny Lee Miller, de Dexter) e Begbie (Robert Carlyle). Subprodutos de seus ambientes, respectivamente, há o vício em heroína, há o vício no parasitismo de querer vencer na vida sem esforço e há o vício em violência. Um contraste com a suposta normalidade saudável de Renton em Amsterdã. Essas quatro perspectivas, agora separadas do contexto de jovens junkies, são evoluídas de forma madura e totalmente consciente pelo roteirista John Hodge (Em Transe).

O retorno de Renton já seria suficiente para deixar clara a temática da crise da meia-idade, proveniente de uma história de vida conturbada e/ou insatisfatória resultando num adulto disfuncional. A nostalgia é um refúgio, assim como a heroína. Carregar um título vazio numa multinacional (que em breve não mais existirá) e ter um casamento fracassado são os gatilhos. Voltemos a Edimburgo, portanto, o ponto antes da virada.

Vinte anos depois, é interessantíssimo ver como a perspectiva sobre o vício de Renton, numa breve fala com Spud, pode ser facilmente resumida: “você tem que apenas viciar-se em outra coisa.” E, assim como o Renton de vinte anos atrás, um dos seus vícios é ser relapso, entrando em trambiques com o outro lado de sua moeda AKA Sick Boy. Enquanto isso, Begbie continua sendo, simultaneamente, a comédia e o choque, um macho alfa psicopata e impotente, um sujeito que não entende as boas intenções de um filho que optou pela honestidade. Escolhas, escolhas.

Falando nelas, Boyle parece aqui, como bom quarentão voltando a um passado glorioso, fazer tudo com a maior intensidade possível, e o digital serve como ponto de separação temporal e visual do Trainspotting original e seus 35mm. Outra escolha interessante é a música: o longa de 1996 era repleto de canções clássicas que acompanhavam narrativamente o passar dos anos, enquanto em T2 a escolha é pelo sintético, em diversos momentos contando com a música do grupo de rap escocês Young Fathers como trilha de fundo, enquanto a icônica “Born Slippy” (que toca nos créditos finais do original) surge como um fantasma que nunca faz sua presença de forma definitiva, mas pipoca aqui e ali de forma remixada e constantemente tendo a mesma função melancólica das imagens do passado intercalando o presente.

O tempo atual, inclusive, não perde em nada para o passado de humor cruel. Sick Boy é um trambiqueiro que mora num apê de solteiro cocainômano, esse localizado em frente a um grande ferro velho de entulhos acumulados, talvez a melhor metáfora para sua vida, a exemplo de um momento em que um dos personagens se vê preso entre quatro paredes que refletem sua própria imagem e outro é assombrado pela… bem, pela própria sombra. São momentos pontuais que não precisam ser obviedades para causar impacto, e muitos deles são uma evolução no apuro visual de Boyle (apesar de alguns exageros), além da tecnologia que agora permite uma facilidade muito maior em filmar imagens externas noturnas e dão um clima próprio ao filme, muito mais soturno.

Talvez a única pergunta que interesse desde que T2 foi anunciado seja: o que esse filme poderia ter de novo para falar? E a resposta é: absolutamente nada. E nem precisa. A estagnação é a chave para apreciar o filme. Atualizando o vício por TV e futebol por redes sociais ridículas, filtros de Snapchat e pornôs de vingança, é suficiente ouvir o solilóquio de Renton num dos momentos marcantes da obra para entender que não apenas pioramos, como, provavelmente, nos enfiamos num buraco sem volta. Os normais continuam com seus paliativos, os furtos de toca-fitas de carro evoluem para cartões de crédito, Spud talvez ache uma redenção inusitada, mas só interessa no fim das contas o fato de T2 respeitar sua natureza anárquica. Ainda estamos lidando com pessoas fracassadas que só conseguem lidar com uma sociedade doente sendo ainda mais doentes, comendo pelas beiradas, vistos como indigentes ou degenerados. E isso basta.

Filmes raramente precisam de continuações. Filmes já clássicos muito menos. T2 Trainspotting não precisava existir. E, mesmo assim, resta apenas celebrar sua existência.

Felipe Franca
Escrito por Felipe Franca

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T2: Trainspotting


PAÍS: UK
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 117
ESTREIA: 12 de dezembro de 2017
DIREÇÃO: Danny Boyle
ELENCO: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller
SINOPSE: A continuação da saga "Transpotting" reunindo os personagens originais.