Strong Island

Strong Island

Strong Island é a crônica de uma realidade que sempre martela um grande contigente de famílias negras; boa parte de histórias são americanas, mas isso não quer dizer que no Brasil não se aplique. Ouso infelizmente dizer que é uma trágica e regular história afro-americana.

Eu poderia ser o William.

Nos primeiros minutos vemos que as coisas realmente não saíram como esperado – ou como disse acima, estava destinada a ocorrer. As cenas fechadas da mãe de Yance Ford (o diretor do documentário) e sua tentativa de falar com os responsáveis legais de um assunto que futuramente saberíamos: a morte do seu irmão mais velho, William Jr., em um acerto de contas, uma escalada desproporcional que instiga mais uma vez o debate sobre a liberdade no uso de armas nos EUA, assim como visto na Sand Line Law (lei da Flórida em que se uma pessoa sentir-se “ameaçada”, ela pode sacar sua arma) discutida no documentário 3/1 minutes, Ten Bullets (creio que ainda está na Netflix).

O percurso da mãe e pai de Yance dão o tom dessa trágica predestinação, mesmo sendo uma família feliz; desde sua saída do sul afim de fugir de investidas racistas, lei Jim Crow e da Klu Klux Klan para tentar a vida no norte dos EUA. Mesmo lá, tornariam a morar em bolsões onde negros eram segregados em uma Port Island predominantemente branca e que foi o início de uma série de rachaduras naquela família, iniciando pela fé em uma justiça que não os abarca.

Ford usa da nostalgia ao usar fotografias como recurso narrativo, expondo-os em uma base branca tal qual uma moldura, mesmo método visto no doc brasileiro Guarnieri. Mesmo com certo distanciamento da obra, é um recurso que confesso, mexeu comigo, uma vez que tal qual Yance, tenho uma mãe professora e um pai que trabalhava em um serviço afim da cidade (meu pai é cabista e o dele era motorista de metrô). Eu poderia ser o William.

A quebra da quarta parede é um recurso utilizado da forma mais honesta possível: Yance realmente fala conosco, expõe suas frustrações e dores ao perder seu irmão, e o diretor faz questão de posicionar os demais entrevistados muitas vezes falando diretamente para a câmera, forçando essa proximidade crua com o espectador. Em outra instância vemos a agonia do diretor em cenas mais fechadas: certos momentos em closes trazendo empatia, e em outros, nas entrevistas, onde seu rosto é posicionado em espaços minúsculos, claustrofóbicos.

Por mais histórias que conheçamos sobre negligência e violência moral quanto a vítima é negra, o grande ponto é que Yance não esconde os erros do irmão, e sofre na nossa frente quando sente que ela poderia impedir seu assassinato. Ninguém é santo na história, mas matar? Tem realmente sentido?

Os mesmos socos desferidos sobre a madeira de Ford são os golpes que a família toma de momento em momento. Vemos a seguir a deterioração da família Ford, com o uso bem empregado do silêncio e da câmera estática em pontos da casa e do bairro negro, o “porto seguro” que leva o nome do documentário. São incômodos momentos hanekeanos (em uma referência ao diretor Michael Haneke) já que mesmo a justiça – que não ocorre – não resolverá.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

Ainda não há comentários.

Ninguém ainda deixou um comentário para esta publicação!

Deixe uma resposta

Strong Island


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 107
ESTREIA: 20 de outubro de 2018
DIREÇÃO: Yance Ford
ELENCO:
SINOPSE: Examinando a morte violenta do irmão do cineasta e o sistema judicial que permitiu que seu assassino fosse liberado, este documentário levanta o medo de ser assassinado e a percepção racializada, além de re-imaginar os destroços na catástrofe, desafiando-nos a mudar.