Straight Outta Compton

Straight Outta Compton

“É a merda da Compton, cara”.

Foi o que Dr. Dre (interpretado pelo ator Corey Hawkings) ouviu de Easy-E (Jason Mitchel) após a notícia do assassinato do seu irmão mais novo, mostrando que crescer naquele bairro suburbano da Califórnia nos anos 80 era nascer com uma arma apontada para sua cabeça, realidade não tão distante de alguns bairros do Brasil.

Baseado na vida de Dr. Dre, Ice Cube (O’Shea Jackson Jr.), Easy-E, Mc Ren (Aldis Hodge) e Dj Yella (Neil Brown Jr.), Straight Outta Compton é o retrato de uma realidade que não é só pertinente aos EUA no momento em que ligamos a TV brasileira e casos de racismo etsão mais em voga (embora sempre afirmem que são casos “isolados”).

O filme conta a história do NWA (Niggaz With Attitude), grupo de rap americano que foi responsável pelo por jogar na mídia o gangsta rap e elevar o nível contra o racismo perpetrado por organizações públicas, em particular a polícia, ou seja, nada que se assemelhe aqui (sim, estou sendo bem irônico).

O filme começa na Compton de 1986 com Easy-E fugindo praticamente da morte certa, ou por traficantes ou pela batida policial. A camera na mão transmite a característica urbana que será representada por toda a película e área de conforto do diretor F. Gary Gray, uma vez que já dirigiu vários clipes de rap durante sua carreira. Porém isso não é sinônimo de um trabalho preguiçoso; Gray utiliza sua competência ao conhecer e viver o movimento hip-hop principalmente nas partes musicais, em que toda a vibração do grupo e da platéia soa avassaladora.

A música é um dos pontos essenciais da produção, apesar da letra ter uma força bem maior, praticamente como manifestos de uma esfera injustiada da sociedade americana (a concepção e exibição de Fuck The Police, cuja execução foi probida em Detroit, são pontos altos). Além da trilha de verve negra, com uso de soul, R&B e funk, o filme utiliza obviamente o rap do NWA. Ademais, pincela simbolismos irônicos, como a primeira aparição de Ice Cube em um ônibus escolhar onde vislumbra jovens brancos ao som de “Everybody Wants the Rule the World” do Tears for Fears e, sem seguida, retorna brutalmente à sua realidade. Na apresentação de Dr. Dre, a música negra ganha auras de magia, com uma bonita cena do ator deitado sobre os discos entre flares (estes são utilizados discretamente em momentos épicos do longa).

A escolha do elenco chama atenção por encontrar atores bons e realmente parecidos com os envolvidos na cena rapper criada desde então: os que representam Snoop Dogg e Tupac não necessitariam de legenda devido à semelhança – recurso estilístico do filme que demarca os personagens através de lettering cursivos nas suas primeiras passagens pela tela.

Paralelo ao segundo e terceiro ato, o roteiro aplica um evento que faz o grupo crescer, demonstrando que Compton é apenas um sintoma de um problema ainda maior: em 1991 os policiais que espancaram o taxista Rodney King em uma blitz policial nos EUA foram absolvidos, acarretando em uma explosão de revolta perante a comunidade negra da Califórnia, que saiu pelas ruas como uma tsunami de indignação, varrendo lojas e avenidas. Tal momento que compara-se à revolta ocasionada pela homicídio de Martin Luther King – em que James Brown precisou intervir na época – chegou a unir as maiores gangues rivais do estado: Os Crips e Bloods (representados respectivamente pelas cores azul e vermelho). Essa é a imagem que Ice Cube e Dr. Dre (ambos fora do grupo que lhes deu fama) veem nas ruas e que os fazem pensar que é hora do NWA voltar à ativa. Paul Giamatti  como o empresário da banda – e o ator mais conhecido do longa – passa uma confiança para o espectador, o que torma mais pesada a decepção trazida pelo personagem.

A fotografia de Matthew Libatique tem uma desaturação que sugere dois sentidos: o tempo em que o recorte histórico é apresentado e a vida sem muitas cores dos personagens. O preto é uma cor que está bem presente e evoca o mundo sombrio em que a história dos membros está envolvida e como citado no parágrafo anterior, o vermelho e o azul são cores também muito vistas durante a produção.

O vermelho é praticamente uma significação do personagem Suge Knight (R. Marcus Taylor), que desde sua primeira apacição já evoca um perigo e sempre apresenta-se com essa cor. Quando Dr. Dre une-se ao guarda-costas e monta um selo, o vermelho domina todo o estúdio.  Toda essa teoria é justificada ao aparecimento de Snoop Dogg (Keith Stanfield) no local, onde a câmera faz questão de focar na sua bandana azul presa no bolso da calça (marca dos Crips, gangue que o rapper é assumidamente filiado) e o início de discussão que é gerada a partir daí, não focando na rivalidade das gangues, mas com esse subtexto.

Mesmo ignorado pelo Oscar de 2016, Straigh Outta Compton apresenta-se como um justo retrato de um grito de raiva da sociedade menos abastada, mas que é impossível deixar de ouvir.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

Ainda não há comentários.

Ninguém ainda deixou um comentário para esta publicação!

Deixe uma resposta

Straight Outta Compton - A História do N.W.A.


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 147
ESTREIA: 14 de novembro de 2018
DIREÇÃO: F. Gary Gray
ELENCO: O'Shea Jackson Jr., Corey Hawkins, Jason Mitchell
SINOPSE: Cinco jovens da Califórnia da década de 80 usam suas experiências pessoais na produção de músicas contra o sistema. Surge o N.W.A. (Niggaz Wit Attitudes), que dá voz a uma geração e promove a explosão do gangsta rap.