Step Sisters

Step Sisters

Confesso que quando acabei de ver Step Sisters tive pensamentos conflitantes sobre o que se propôe. Inocentemente embalado como um sub-produto de A Escolha Perfeita (2012), mas com um roteiro que desperta questões tão caras à nossa época, o filme reverbera pontos da sociedade pós-Obama, assim como em Cara Gente Branca (2014) e DOPE (2015). E assim como nas produções citadas anteriormente, os estereótipos alicerçados sobre a sociedade negra são desconstruídos e infelizmente ainda surpreendem devido a sua pluralidade.

O projeto tende a levantar a bola sobre apropriação cultural, uma vez que a protagonista Jamilah (Megalyn Echikunwoke, da série Arrow), líder da sororidade negra e capitã da equipe de step dancing é “obrigada” a ensinar a Sigma Beta Beta, outra casa formada em sua maioria por brancas, a dançar uma modalidade que é vista como tradição negra; com o êxito da SBB, Jamilah conquistaria uma indicação para a faculdade de direito de Harward. Para início de conversa, os personagens seguem a estranha mania de produções do gênero, onde atores de 30 e poucos anos representam estudantes do último ano do segundo grau.

O primeiro estranhamento é que na sororidade de Jamilah há uma estudante branca. E ela pertence ao time, faz parte do grupo. Na SBB, temos a presença de Saundra (Nia Jervier), negra e também aceita em seu grupo. Essas presenças nos dois grupos já demonstram o quão complexas as relações étnicas são, e só tende a complicar com a presença do namorado de Jamilah, Dane (Matt McGorry), branco e o estereótipo de uma figura que faz-se tão presente nos dias de hoje: o desconstruidão.

O potencial está no roteiro de Chuck Hayward (presente na série Cara Gente Branca, lançada em 2017 pela Netflix), que usa a comédia para desarmar o público e na premissa tola dirparar indagações, com direito a provocações sobre o estereótipo fílmico do Magical Negro (o negro/negra que faz da sua sabedoria uma escada para o protagonista), inexistência de um antagonista como personagem (ou a temporariedade do mesmo quando existe), a presença de conflito de ideias entre Jamilah e suas irmãs de casa, entre outros.

Embora a direção de Charles Stone III  seja regular, existem alguns elementos que o diretor atenta-se, como dedicar boa parte de tempo de cena nas apresentações – criadas por Aakomon “AJ” Jones de A Escolha Perfeita – à Saundra, como um sinal de coprotagonismo e cuidado para que a glória não seja apenas da parcela branca. Ademais, mesmo que os personagens periféricos tenham características unidimensionais fortes com o intuito de determiná-las, há sempre algum elemento dissonante que a deixa mais interessante, como a líder da SBB Danielle, que demarca a posição de Mean Girl, mas é super zeloza com seu irmão, Kevin (Marque Richardson, o Reggie nas duas versões de Cara Gente Branca).

O que me deixa de orelha em pé é um possível viés do filme em estimular a apropriação cultural; isso parte de um debate já presente no cinema sobre as realidades presentes no filme e fora dela: vemos a tela uma representação do real, e não a realidade por mais naturalista que a direção seja, logo é complicado pontuarmos os indivíduos como apropriadores de cultura. Mas ao criarmos o distanciamento e analisarmos o filme como um produto pertencente a engrenagem mais poderosa – e esta sim com poder de afetar a sociedade – as coisas mudam de figura.

Mesmo com esse possível problema, Step Sisters abre uma porta inicial para debate. Não à toa, a Netflix lançou um vídeo onde celebrar e apropriar são tingidos com diferentes tons. Espero que, futuramente, a vida imite a arte dessa forma.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Step Sisters


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 104
ESTREIA: 19 de janeiro de 2019
DIREÇÃO: Charles Stone III
ELENCO: Eden Sher, Alessandra Torresani, Gage Golightly
SINOPSE: Uma líder de universidade tem que ensinar um grupo de alunas inaptas a ganharem num concurso de dança.