Star Wars: Os Últimos Jedi

Star Wars: Os Últimos Jedi

[SPOILERS? ALGUNS]

O filósofo francês Edgar Morrin – meu xará, por acaso – definiu como noção de pensamento complexo à capacidade de interligar diferentes dimensões do real. Mas o que é que tem a ver iniciar uma crítica sobre o oitavo filme da franquia Star Wars com uma denominação filosófica?

Bom, em suma, Morrin em seu estudo sobre o complexo explica filosoficamente o cerne de redes sociais e o que significa “a Força”.

Como tudo tem que ser mastigado, a obra ainda oferece uma versão desenhada da famosa frase de Nietzsche “quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você”

O fato é que diferente de uma tese que tenhamos que nos debruçar, Star Wars vende filosofia de forma barata e rasa, o que não é nenhum demérito, já que nunca se propôs a ser um universo cabeçudo: o problema é quando temos quarenta anos de ópera espacial sem nada relativamente novo. Começamos essa terceira trilogia requentando alguns elementos do Uma Nova Esperança (1977), e que atrelado às mudanças do zeitgeist foi um tempero a mais, que deixou muita expectativa, ainda mais com o retorno de antigos rostos – e infelizmente com a morte de um deles, o que foi a trágica morte da eterna princesa Carrie Fisher.

E cá estamos com Os Últimos Jedi, que para mais ou menos do ponto onde O Despertar da Força nos deixou. Essa nova aventura atinge o escopo, propondo drama, romance, reviravoltas, as famosas transições bregas (em menor quantidade até) e tudo que a série pede. E mais: é melhor que o seu antecessor em vários quesitos, inicialmente com a sua estrutura muito mais coesa e mais personagens com que nos preocupar espalhados em setores diferentes da galáxia.

O tema principal de Os Últimos Jedi é o conflito de gerações, a luta da sabedoria dos mais velhos com a impulsividade dos jovens, esfregado na cara do espectador a todo o momento. Ademais, diálogos expositivos que cansam; e a cereja do bolo são as inserções-chave de frases de efeito que aludem aos títulos – era um enfado a cada Hope, Awake, e o pior: conseguiram incluir uma citação ao próprio. Somado a todo esse processo, a trilha já conhecida enfia cliché após cliché e comenta cada passagem, numa ultra-subestimação aos fãs. Os marinheiros de primeira viagem, que não tem acesso ao código sonoro da saga, devem pensar “ei, essa parte quer dizer algo”.

A grande novidade foi a da área cinza acerca da Força, explicado por um relutante Luke (Mark Hamill) à sua teimosa e pretensa pupila Rey (Daisy Ridley) que remete à citação no primeiro parágrafo – de forma muuuito mais leve. Como tudo tem que ser mastigado, a obra ainda oferece uma versão desenhada da famosa frase de Nietzsche “quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você”- e se você for a Rey, ainda cai. Assim como a protagonista, todo o núcleo jovem impulsiona a trama, literalmente: Poe Dameron (Oscar Isaac de X-Men: Apocalipse) cheio de charme e petulância procurando briga com todo o alto escalão da Resistência; Finn (John Boyega de Detroit em Rebelião) em uma missão quase suicida, agora ao lado de Rose (Kelly Marie Tran) e mais uma vez lembrando aquela triangular tensão sexual com Rey de outrora (Luke – Leia – Han enquanto não se sabia que os dois eram irmãos). E Kylo-Ren (Adam Driver, de Logan Lucky) do lado da Primeira Ordem ganhou mais camadas e potencial de se tornar um antagonista valoroso, mas longe de emparelhar com o icônico Vader.

As reviravoltas da longa produção são previsíveis para quem tem o mínimo conhecimento da saga, tornando-se até “brindes” para o fã minimamente disciplinado, ciente que o final do treinamento de um Sith consiste em matar seu mestre, por exemplo. Falando em baixas, não há medo em causar mortes nesse episódio, tanto de modo a limpar personagens que não contribuíam com a trama como a Phasma de Gwendoline Christie (Game of Thrones) e/ou que não alçaram o amor/ódio do público, como Snoke (Andy Serkis). Ressalto a coragem de manter a sobrevida de Leia, num momento surpreendente em que vemos o uso da Força por parte da personagem – ao mesmo tempo que morre um personagem de longa data, o Almirante Ackbar – presente em O Retorno de Jedi (1983).

As soluções, principalmente quando o adorável robô BB-8 está presente, soam preguiçosas a ponto de poder cunhar o termo BB-8 ex Machina: lembro umas três vezes em que o personagem salva o dia em situações que tudo parecia impossível – na fuga da nave da Primeira Ordem chega até a ser forçado.

Mas sim, tem pontos bons: a atuação dos atores é divertida, embora perca-se a empolgação com Kylo Ren e Rey, as cenas de batalhas aéreas (?) são deslumbrantes; e Laura Dern (do primeiro Jurassic Park) protagoniza um dos melhores momentos, onde o diretor Rian Johnson consegue arrancar uma surpreendente dramaticidade ao distorcer a ideia do espaço de Star Wars sempre ser muito barulhento; e usa um simbólico vácuo silencioso.

Tudo o que eu disse anteriormente seria ruim se fosse um filme: e esse é o trunfo de Rian Johnson. Ele sabe que tem um evento em suas mãos: a concepção desse episódio me remete muito à visão de uma avó ao assistir a novela e brigar com os protagonistas, chamá-los de burros, comemorar uma vitória, xingar o vilão – e responder “Boa Noite” ao Bonner. Os Últimos Jedi foi, mesmo com todos os clichês e forçadas, feito para fazer o público gritar, chorar e torcer como um fim de campeonato. Se verdadeiramente foi a intenção, que a Força esteja com ele.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

Ainda não há comentários.

Ninguém ainda deixou um comentário para esta publicação!

Deixe uma resposta

Star Wars: Os Últimos Jedi


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO: 12 anos
DURAÇÃO: 152
ESTREIA: 19 de dezembro de 2018
DIREÇÃO: Rian Johnson
ELENCO: Daisy Ridley, John Boyega, Mark Hamill
SINOPSE: Rey continua com sua jornada épica com Finn, Poe e Luke Skywalker para o próximo capítulo da saga.