Pantera Negra

Pantera Negra

Confesso que tive medo de Pantera Negra logo no início do projeto: era um misto de hesitação e excitação por novamente ter um herói negro dos quadrinhos nos cinemas – a última vez foi Blade, 20 anos atrás. E As coisas foram acalmando após a entrada de Ryan Coogler no projeto, responsável pelos ótimos Creed (2015) e Fruitvalle Station (2013); e sabendo que criar perspectivas é uma das armadilhas de qualquer crítico, aquietei-me.

Eis a felicidade ao perceber que Pantera Negra não teria o drop the mic (ou, em bom português, o lacre) como propósito; no seu lugar, uma obra de entretenimento com elementos de cunho social que o tornam o filme mais politizado do Universo Marvel, lugar antes ocupado por Capitão América: O Soldado Invernal (2014).

Após a morte do seu pai, T’Challa (Chadwick Boseman, de James Brown) tem que cumprir suas obrigações de monarca de Wakanda, país escondido nas entranhas da África e portadora de uma tecnologia inimaginável graças ao vibranium, metal alienígena que modificou a flora do local, também auxiliando a fornecer os poderes que tornam o outrora príncipe no Pantera Negra. O conto do início da película já ressalta uma das tradições de vários grupos negros: a história oral, e prenúncio que elementos da cultura afro estariam presentes durante os 134 minutos.

Na primeira cena extra – sim, existem duas – o discurso de T’Challa na ONU me remeteu a outro não só pelo conteúdo: a icônica fala de Charles Chaplin em O Grande Ditador (1940). Ambas eram imprescindíveis para aquele momento da humanidade, de tal forma que mesmo sem Boseman olhar para a tela, suas palavras quebram a quarta parede, dando um recado pungente e claro ao governo de Donald Trump. Esses “recados” não são dados só verbalmente: a partir da composição do elenco, predominantemente negro, num filme de super herói e o estranhamento que imagino que cause a outros olhares é fascinante.

Como os demais filmes da Marvel, Pantera é desprovido daquela música.

Fascina também a direção de arte pela arquitetura presente em Wakanda, onde o design bebe no afrofuturismo e suas estruturas assemelham-se a elementos presentes na natureza, mas ainda assim mantém uma realidade urbana: perceba como alguns edifícios tem seu centro abaulado como um baobá – árvore presente nas savanas – e outras tem partes sobrepostas como escamas. Ademais a presença de elementos africanos em locais que inicialmente supõem uma certa esterilidade, como o laboratório de Shuri (Letitia Wright, da 4ª temporada de Black Mirror) mas que expõe um painel vibrante e colorido.

A música é um dos fortes: para um baiano (eu, no caso), local em que os sons do tambor são sinônimo de lar, foi delicioso ouvir a trilha de Pantera, em que cada rufar ou cântico emanava uma afinidade incomensurável. Durante o revés com Killmonger (Michael B. Jordan, também em Creed e Quarteto Fantástico), a trilha permanece com sons de verve africana com batidas de Rap, demonstrando a influência externa num reino cujas tradições importam. Como os demais filmes da Marvel, Pantera é desprovido daquela música: você pode ouvir alguma das músicas na rua e reconhecer que faz parte da trilha (uma grande qualidade), porém não há nenhum tema marcante a ponto de sair cantarolando, como o da Mulher Maravilha (2017). Ademais, o filme tropeça na conclusão, onde os efeitos visuais dos personagens assemelham-se a uma partida de videogame, soando artificial.

Falando em Killmonger, é gratificante a presença de um “vilão” realmente trabalhado: Jordan entrega a angústia do personagem e mesmo que suas posições sejam radicais, fazem muito sentido. O comportamento do antagonista assemelha-se ao 5 estágios do luto. Explico: em muitos grupos, principalmente os que lutam por direitos igualitários, encontram-se pessoas em vários estágios; umas sentem ódio por tudo o que aconteceu/acontece com o próprio e/ou com sua comunidade (aqui é o ponto de Killmonger e seu pai), enquanto outros vão cruzando esse caminho de dor até perceberem que lutar de forma mais empática seja o melhor jeito (nota do crítico: isso não contempla neonazis). Erik é a gota que transborda o copo continuamente preenchido por Nakia (Lupita Nyong’o, de Star Wars: Os Últimos Jedi e Rainha de Katwe) para que T’Challa estenda a mão de Wakanda para os necessitados do mundo.

Além de Jordan, todo o elenco realiza um afinado trabalho, com destaque para Okoye (Danai Gurira) que já mostrava-se uma excelente atriz física em The Walking Dead e o roteiro a beneficiou com uma personagem com um forte dilema e provida de comentários mordazes que por vezes cria o humor, mas longe de ser um alívio cômico. Aqui, Pantera Negra exclui as piadinhas diretamente focadas no personagem, motivo de críticas em Doutor Estranho (2016), e as utilizou de modo mais sofisticado.

Os maiores elementos de graça, ironicamente, são os dois homens brancos do filme: o vilão Ulisses Klaue (com um Andy Serkis, de Planeta dos Macacos: A Guerra, num louco overacting) e Martin Freeman, onde o deslocamento do seu Everett K. Ross o torna divertido. O filme também ganha na forma em que trabalha com seu trio principal: T’Challa, Okoye e Nakia tem uma presença quase homogênea na tela. Se não em tempo, na intensidade ou quando compartilham a cena.

Com retorno do herói em Vingadores: Guerra Infinita, a obra de Coogler demonstra que realmente era uma tolice não apostar em heróis pertencentes a minorias; neste ponto percebe-se que tanto a DC quanto a Marvel, juntas em suas apostas, erguem uma ponte em que toda a sociedade vence.

OBS: infelizmente não poderei falar muito da fotografia, já que o cinema onde vi Pantera Negra tinha algum problema na sua projeção, deixando o filme levemente azulado. No entanto, assisti em 4D; cortesia do UCI do Shopping da Bahia cujo ar condicionado encontrava-se com defeito, então pude sentir todo o calor wakandiano acompanhado os óculos 3D sujos e que volta e meia embaçavam devido ao ar quente. Valeu, UCI! Continue assim.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Pantera Negra


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO:
ESTREIA: 20 de junho de 2018
DIREÇÃO: Ryan Coogler
ELENCO: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong'o
SINOPSE: T'Challa, o novo governante do reino avançado de Wakanda, deve defender sua terra de ser despedaçada por inimigos de fora e dentro do país.