Os Últimos Homens em Aleppo

Os Últimos Homens em Aleppo

Em menos de um ano, a problemática da guerra civil na Síria foi por diversas vezes contemplada através do cinema: vimos o altruísmo de simples trabalhadores no vencedor do Oscar por Melhor Curta Documental em 2016 Os Capacetes Brancos (na Netflix), vislumbramos o contexto da dor por uma perspectiva infantil no longa documental Cries from Syria (da HBO); e no novo indicado ao Oscar, retornamos à realidade dos Capacetes Brancos em Os Últimos Homens em Aleppo.

Os Últimos Homens preocupa-se em ser mais contemplativo, contudo mesmo na poesia é encontrada agonia.

O longa amplia o que foi visto no curta da Netflix, apresentando a dura realidade da Defesa Civil Síria, grupo criado em 2013 formado por cidadãos comuns e conhecido como “Capacetes Brancos” devido a cor do EPI utilizado. Estes se recusam a deixar o país, afim de auxiliarem no salvamentos das vítimas de desabamentos decorrente das bombas aéreas lançadas pelo regime do outrora ditador Bashar Al-Assad e sua aliança russa.

Diferente da produção com ar explicativo da HBO, Os Últimos Homens preocupa-se em ser mais contemplativo, contudo mesmo na poesia é encontrada agonia. Uma surpresa é reencontrar Khaled, o homem que no início do curta da Netflix retira um bebê debaixo de toneladas de escombros. Ele é o guia por essa jornada de tensão, onde o altruísmo desafia a inconsequência, onde os olhos, sempre atentos aos céus colocam apreensão nas feições dos sírios que ainda residem na capital sitiada.

Junto com seus companheiros, as incursões por locais destruídos, assim como a visita a hospitais e os debates sobre o desmantelamento dos Capacetes Brancos pelas bombas russas são os elementos que vão compondo a narrativa. Em momentos-chave, a trilha sempre tensa emoldura as cenas de terror – em quase todas com envolvimento de crianças, as maiores vítimas da guerra.

Em certo instante, vemos Khaled afirma resignado “eu não vou embora, essa é a minha terra“, mas a fotografia, não bastando da destruição em todos os locais, impulsiona essa sensação de não-pertencimento com uma lente grande angular – quase um olho-de-peixe – que traz desequilíbrio à cena. Ao lado, temos sempre a câmera na mão, também ressaltando o medo de estar no front e passar pela ameaça mortal de um bombardeio: uma visão grotescamente bela, tal qual um ataque divino.

Com um retrato intimista do mal que perpassa os homens no que tange à política, Os Últimos Homens em Aleppo apresenta também a imensidão da bondade humana, que nem todas as bombas do mundo conseguem aplacar.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

Ainda não há comentários.

Ninguém ainda deixou um comentário para esta publicação!

Deixe uma resposta

Últimos Homens em Aleppo


PAÍS: DIN | SIR
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 104
ESTREIA: 24 de setembro de 2018
DIREÇÃO: Feras Fayyad
ELENCO: Khaled Umar Harah, Batul, Mahmoud
SINOPSE: Khaled, Mahmoud e Subhi se integram nos capacetes brancos tentando salvar vidas de centenas de vítimas na cidade durante a guerra civil síria.