Operação Big Hero 6

Operação Big Hero 6

Breve histórico:

No início do século XXI, a Walt Disney Animations se viu em uma situação tão desconfortável quanto aquela que viveu em seu período negro pós morte de seu criador. Com tantos estúdios produzindo animação de qualidade ascendente, a empresa do Mickey Mouse foi se perdendo no tempo e desagradando crianças e adultos com filmes como Dinossauros, Planeta do Tesouro e Nem que a Vaca Tussa. A preocupação ganhou novas proporções à medida em que o contrato feito com a Pixar, empresa de notória marca de qualidade e parceira lucrativa, ia chegando ao fim. Essa longa-pequena história termina com final feliz, e não só a Pixar se tornou parte fixa da Disney, mas um de seus diretores-chefe, John Lasseter, foi nomeado chefe criativo do estúdio.

E onde quero chegar com todo esse histórico delongado e potencialmente entediante?

Nos últimos 4 anos, em seus lançamentos anuais, é notável uma “escadinha” de qualidade, onde partimos do notável Enrolados, passamos pela inteligência estimulante de Detona Ralph e concluímos com o sucesso épico de Frozen, filme que trouxe um novo olhar ao catálogo empoeirado das chamadas “Princesas Disney”. O estúdio tinha plena noção da responsabilidade de alcançar novos voos e continuar seu processo de autosuperação e não era de se espantar a decisão de colocar na jogada um material de outra marca recém-adquirida.

A Marvel.

Não, não estamos falando de Homem de Ferro, Thor, Hulk, Vingadores, mas um grupo pouco conhecido e de grande potencial para animação. Operação Big Hero 6 aposta na fórmula da trajetória do herói e a segue fielmente como cartilha. Hero, garoto superdotado que desperdiça seu engenhoso potencial em lutas de robô, se vê obrigado a usar seu conhecimento para enfrentar um supervilão. Impulsionado pelo seu irmão, que funciona como a figura do “mestre”, apontando o caminho certo e o motivando, Hero reúne um grupo de jovens cientistas arquetípicos para salvar o dia.

Introduzindo seu contexto pautado em diálogos didáticos, recheados de muletas do tipo “Você sabe que eu…”, a animação ganha ritmo em seu segundo ato, após uma série de eventos melodramáticos que, se movem a narrativa para frente, pecam pela falta de sutileza e maturidade no tratamento. A entrada de BayMax, andróide criado para proteger Hiro, traz uma força cômica e gradativamente dramática pelo envolvimento realizado com seu protegido. Sua ingenuidade, em contraponto com seu tamanho, garante uma qualidade humorística que faz empalidecer algumas tiradas bobas e repetitivas vindas da hiper-ativa tia do protagonista e de um amigo desleixado (este último se redime com duas viradas interessantes ao longo do filme).

As influências orientais, que vão desde o nome da cidade (San Fransokyo), passando pela arquitetura dos prédios que mistura as curvas dos telhados japoneses com a rigidez dos edifícios estadunidenses, dão a metáfora perfeita para o tom almejado pelo longa. O exagero oriental, comum em animes e mangás, é presente nas ações daqueles que envolvem a vida de Hiro, com exceção de BayMax, que mistura um design que garante movimentos rápidos e pequenos (algo que o puxa para sua ascendência japonesa) mas com um tipo de humor em seus comentários que o torna uma espécie de “Marvin” (Guia do Mochileiro das Galáxias) otimista, preenchendo as ações dos outros personagens e roubando a cena. As repetições e pistas plantadas durante o filme são de alta qualidade e garantem recompensas gratificantes ao público, além de ser seu ponto cômico mais alto, o cumprimento e a preocupação exagerada de BayMax dão conta disso. “Em uma escala de zero a dez…”.

A montagem se torna uma grande aliada na construção de suas gags. Com um tempo delongado de reação, o humor se estende sem forçar demais e demonstra inteligência na utilização de planos abertos contemplativos, sempre acompanhados de um silêncio ou som constrangedor. A utilização de avanços temporais em câmera rápida e clipes de tutorial para a fase de treinamento da equipe tem qualidade em suas execuções e garantem segurança na manutenção da atenção do público, enquanto uma trilha incidental de músicas pop atuais empolgam e se demonstram bem escolhidas em relação as suas cenas.

O design dos personagens é um ponto importante para o envolvimento emocional estabelecido, e a escolha do “material” e formato gordinho de BayMax, além de seus olhos arredondados, como se sempre estivesse arqueando as “sobrancelhas” curioso, transmite um sentimento de apego pelo público que perdura até o fim da sessão. Os animadores definiram a busca pelo que queriam com seu formato como algo “abraçável”, e a textura do vinil brilha e se molda de forma interessante (além de ter um grande potencial para vendas de brinquedos). Sua função de proteger como agente de saúde e sua preocupação com Hiro (física e psicológica) se torna o grande laço dramático do filme, e seu papel de alívio cômico vai dando lugar ao de herói.

Apostando no equilíbrio entre comédia, ação e drama, Operação Big Hero passeia bem entre os gêneros, e mesmo com os solavancos da viagem consegue voltar ao seu foco principal. Com um grande exagero na utilização de “alívios” cômicos no cinema de animação atual é sempre bonito ver a sabedoria de se desarmar do sarcasmo e abraçar o potencial emocional do Cinema. Talvez seja isso que faz de “Operação Big Hero” um filme, mesmo inferior aos dois anteriores do estúdio, no mínimo notável na vasta filmografia da empresa.

 

Klaus Hastenreiter
Escrito por Klaus Hastenreiter

CEO BITCH na empresa Olho de Vidro Produções, ator, cineasta, crítico e fofo.

3 Respostas de comentários

  1. Avatar
    dezembro 29, 2014

    Hmm..de uma escala de 0 a 10, acho que eu daria 7,5 ou 8 ~ Talvez seja porque eu tava com a expectativa muito baixa HFDSJKHFSJKD mas gostei muito <3 O cara do cinema falou(como meu grupo de amigos foi o único que ficou até o final dos créditos, o carinha conversou com a gente) que achou bem cliché… Mas sinceramente eu não sei mais o que é não ser cliché :C Porque qualquer plot twist já é esperado, mesmo os que antes não seriam clichés!

    Ps: Eu quero um brinquedo do baymax <3

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  2. Avatar
    março 29, 2018

    foi perfeito o filme.. numa escala de 0 a 10 eu dou 11.. muito bom …

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Operação Big Hero


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO:
ESTREIA: 16 de outubro de 2018
DIREÇÃO: Don Hall
ELENCO: T.J. Miller, Jamie Chung, Maya Rudolph
SINOPSE: Na cidade high-tech de San Fransokyo, o prodígio da robótica Hiro Hamada vê a paz local ser ameaçada por forças poderosas e, acompanhado pelo robô Baymax, se une a um time de combatentes inexperientes determinado a enfrentar os inimigos e salvar o paraíso futurista da destruição.