Oito Mulheres e um Segredo

Oito Mulheres e um Segredo

Ao ressoar a informação que existiria uma versão formada só por mulheres de 11 Homens e um Segredo, remake do filme de 1960 protagonizado por Frank Sinatra, infelizmente já era esperada a chuva de besteiras machistas acerca do projeto.

O mesmo ouvido no projeto de uma versão de Os Mercenários, com elenco majoritariamente feminino.

O mesmo ouvido na versão de Os Caça-Fantasmas, com elenco majoritariamente feminino.

Não obstante, Oito Mulheres e um Segredo, filme dirigido por Gary Ross e capitaneado por Debbie (Sandra Bullock), irmã de um falecido Danny Ocean (George Clooney, líder das versões anteriores), opta pela leveza ao invés de um tom panfletário; contudo distribui elegantes tapas. Com luvas. Exemplo disso é uma das falas em que Debbie e sua comparsa Lou (Cate Blanchett de Thor Ragnarok) elegem as membros da equipe, e a justificativa da personagem de Bullock em não aceitar homens é que “eles se fazem notar, elas são ignoradas“. Ou melhor, subvertendo com “existe uma menina de oito anos em algum quarto que sempre quis ser uma criminosa“.

Ainda com o foco feminino, o filme abraça a todos; começando pela equipe: todas tem seu momento de alívio cômico, com Bullock muitas vezes utilizando os mesmos cacoetes de As Bem-Armadas, de forma moderada. As demais funcionam como apresentação de diversos arquétipos femininos, e é divertido o modo que elas representam suas habilidades de formas mais sutis – e interessantes – do que um Heist Movie convencional: Rihanna sendo Rihanna – e isso é bom; a novata Awnkwafina surpreendendo; Sarah Palson parodiando a vida dupla (ou tripla, quádrupla) da mãe; Mindy Kaling pondo a perspectiva da negação das tradições; Helena Bonham Carter confortável em mais uma personagem estranha, porém uma das mais normais de sua carreira; e Anne Hathaway com uma desconcertante ironia).

Os homens apresentados muitas vezes não são idiotas, mas são colocados como pela situação de serem roubados debaixo dos seus narizes. E o filme cuida para que o protagonismo não seja roubado em nenhum momento. Isso é bem colocado no segundo roubo, onde o coadjuvante masculino é apresentado de forma instrumental. A trilha também cola na aposta pela predominância de vozes femininas com certo toque nostálgico de anos 60 (rememorando o filme de origem), como Nancy Sinatra e Amy Winehouse. A única voz masculina é a de Charles Aznavour, condizente com a premissa.

A parceria entre Bullock e Blanchett sofre pela presença que a segunda tem em tela, aliada ao figurino andrógeno escolhido por Sarah Edwards, que bebe muito de um dos Fashion Designers de David Bowie, Freddie Buretti – observe o terno azul como assemelha-se ao mesmo usado pelo cantor no clipe de Life On Mars e mesmo no Met Gala, ela opta por um Jumpsuit.

Assim como em Star Wars O Despertar da Força, onde o protagonista só é descoberto no final (Rey tendo ciência da Força), Oito Mulheres acoberta o antagonista até o terceiro ato. Aliás, os “atos” são outra quebra na estrutura: sem os Pontos de Trama (revezes no roteiro que fazem o protagonista mudar de direção) facilmente reconhecíveis, o filme desliza para o que realmente interessa de forma fluida. Obviamente, o roteiro conta com umas forçadas tecnológicas para que a trama avance, porém nada tão grave.

O problema é que o plano sai perfeito. Demais. Não fica nenhuma farpa solta para as vigaristas, logo a sensação que o filme se estende por tempo demais começa a dominar, o que faz o terceiro ato soar como um “encaixe” para tentar emitir uma sensação de perigo, o que não funciona muito (lembrando o último Senhor dos Anéis após a queda de Sauron). Para ser mais exato, o único momento que que há algo mais tenso é no escaneamento do colar.

Elegante, simpático, leve e divertidinho, Oito Mulheres e um Segredo funciona como um oásis de entretenimento, mostrando o que todo mundo já deveria saber – e que dá vergonha em 2018 ainda ter que escrever isso: que gênero não desqualifica um filme. Oui.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Oito Mulheres e um Segredo


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO:
ESTREIA: 20 de junho de 2018
DIREÇÃO: Gary Ross
ELENCO: Samantha Cocozza, Cate Blanchett, Olivia Munn
SINOPSE: Debbie Ocean reúne uma equipe para tentar um assalto impossível em um baile de gala anual de Nova York.