O Matador

O Matador

O sertão é o western brasileiro. Mesmo regionalizado do lado oposto, não chega a ser estranho perseguições a cavalo, tiroteios entre outras cenas tão convencionais ao cinema americano. Troca-se o xerife pela volante, os fora-da-lei como cangaceiros; a diferença é que aqui os tons sempre foram borrados, seja pelo tom do barro vermelho do chão rachado, ou pelo rubro do sangue derramado.

E nesse gênero tão difundido dá-se O Matador, primeiro filme nacional produzido pela gigante do streaming Netflix. Pena que a iconicidade ocasionou num filme que segura no apelo estético, mas deixa seus personagens ao léu, talvez presos nos espinhos da caatinga em uma trama amarrada a clichês que fazem com que o espectador praticamente dite o que vai acontecer. Essa predileção em engolfar pelos olhos começa nos créditos de abertura, que transmite a temática numa versão modernosa das animações de Iginio Lardani em Por Um Punhado de Dólares (1964), mas aí começa uma trama, que corta para os créditos de abertura, que entra em outra trama, que entra numa elipse… e aí já não tem quem entenda.

Para o primeiro longa na Netflix, é uma pena.

Quando a narrativa ganha uma certa linearidade, conhecemos Cabeleira, interpretado pelo ator português Diogo Morgado. O protagonista não gera empatia pelo ofício que dá nome ao filme e ainda mais pelo contratante; no mais, Cabeleira é apresentado como um produto do meio onde vive pelo cabelo desgrenhado e dentes tortos, que conferem um tom animalesco. Já Sete Orelhas (Deto Montenegro), pela hombridade de salvar o protagonista ainda bebê de uma suçuarana, torna-se o motivador da jornada.

Se a introdução é confusa, o desenvolvimento é um amontoado de mortes, onde você não se preocupa muito com ninguém, uma vez que Cabeleira é o executor financiado pelo Monsieur Blanchatt, o antagonista interpretado por Etienne Chicot, cuja casa é uma versão empobrecida da Candyland de Django Livre. Quando aparece um personagem que tá um brilho de esperança é sumariamente solapado, como Renata (Thalia Ayala) e Tenente (Paulo Gorgulho). O segundo tem motivação certa, é um personagem interessante, é vendido como um possível nêmesis do protagonista e morre sem peso, virando um desinteressante ponto de virada para o fim. E essa efemeridade da morte é por muitas vezes encontrada.

Outro personagem digno de atenção, mas que é estragado pela repetição do roteiro é o “ilustrador da morte”, Geraldo: é um dos que tem a melhor construção, com detalhes que o tornam bizarro, como a mania por limpeza, a devoção a um orixá, mas que todos a hora, como uma litania, ele resmunga que “agora tem que lavar as mãos”. Desnecessário.

E o fim, pela obviedade, torna-se a cereja do amontoado de confusões que O Matador é. Para o primeiro longa na Netflix, é uma pena.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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O Matador


PAÍS: BRA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 99
ESTREIA: 12 de dezembro de 2017
DIREÇÃO: Marcelo Galvão
ELENCO: Diogo Morgado, Nill Marcondes, Deto Montenegro, Maria de Medeiros, Etienne Chicot, Mel Lisboa, Daniela Galli, Igor Cotrim,Thaís Cabral, Will Roberts
SINOPSE: Cabeleira (Diogo Morgado), criado por um cangaceiro local chamado Sete Orelhas (Deto Montenegro), que o encontrou abandonado quando bebê, cresce no sertão completamente isolado da civilização. Agora um adulto, ele finalmente vai à cidade para procurar o desaparecido Sete Orelhas e acaba encontrando uma cidade sem lei, governada pelo tirânico Monsieur Blanchard (Etienne Chicot), um francês que domina o mercado de pedras preciosas e anteriormente empregava Sete Orelhas como seu matador.