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Mulher Maravilha

Cotação: 8
Publicado por: Felipe Franca | Escrito por: Felipe Franca | 0 comentário

Mulher-Maravilha

Dirigido por: Patty Jenkins Com: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright Gênero: Ação , Animação , Fantasia

Sinopse: Uma princesa amazona deixa sua ilha para explorar o mundo, e tornar-se uma grande heroína.



A espera de décadas para, finalmente, trazer a maior heroína dos quadrinhos para a tela grande de forma definitiva valeu à pena. Uma história de origem que respeita a personagem e suas raízes, Mulher-Maravilha também serve de alívio para quem julgava o universo Warner Bros./DC Comics um caso perdido.

O longa surge num momento importante, no qual a Disney/Marvel (a concorrência direta) já encontrou sua fórmula e aplica pouquíssimas novidades ou recompensas de forma homeopática para um público feliz no seu coma induzido, mantido intravenosamente por entretenimento digno da insipidez de um soro fisiológico.

Ironicamente, Mulher-Maravilha chega muitas vezes perto de bater na porta da tal fórmula Marvel – e as comparações com Capitão América – O Primeiro Vingador não são infundadas -, mas o mero fato de estarmos acompanhando uma personagem feminina que não apela continuamente para o mais inane humor e parece constantemente curiosa e ingênua na relação com o mundo ao seu redor acaba aproximando-se mais do Superman de Richard Donner. E isso nunca poderia ser um erro, considerando o contexto.

Sustentado pela competente direção de Patty Jenkins (apenas em seu segundo longa num período de quatorze anos), os elementos fantásticos e mundanos passeiam unidos sem tropeçar, e a transição de Themyscira para uma Londres em meio à I Guerra Mundial convence por levar o tempo necessário e criar uma base firme para Diana Prince/MM se estabelecer como personagem, além das ameaças vindouras.

E justamente por acertar onde os filmes do atual universo DC erraram grotescamente antes (origens equivocadas e apresentações constrangedoras para elementos fora do comum) é que Mulher-Maravilha sai na frente. Testemunhar o universo das amazonas em Themyscira sem forçar muitos discursos e ainda arriscando uma estética fora do padrão para expandir a sua mitologia com Ares e Zeus via animação, temos a chance de ver algo não inovador, mas que, ao menos, foge do padrão engessado dos filmes do gênero. A lógica visual é bem cuidada, e o fato do filme ser iniciado num mundo alheio à Terra remete mais uma vez ao grande Superman original, mesmo sem cenários mirabolantes ou qualquer vestígio de perigo real.

Mantendo um tom majoritariamente otimista, temos a representação perfeita desse espírito em Gal Gadot, competente no seu retrato de Mulher Maravilha, sempre entre a inocência e a tenacidade, e demonstrando, enfim, um carisma que Batman Vs. Superman nunca deixaria evidente. Chris Pine como Steve Trevor surge como o par perfeito tanto para criar laços amorosos e bons momentos de irreverência, além de não ofuscar sua parceira. Robin Wright como Antiope aproveita seu pouco tempo de tela como uma general obstinada, enquanto Connie Nielsen cumpre bem sua função de mãe preocupada, mas não muito além disso.

Já os vilões interpretados por Danny Huston (Lunderdoff) e Elena Anaya (Dr Poison) servem como vilões maravilhosamente artificiais e ridículos, mas que dentro do universo apresentado divertem justamente por serem uma ameaça bizarra e quase inexistente dentro de uma guerra que perturba a protagonista, algo que terá sua importância nos minutos finais do filme.

Obviamente, o longa não passa sem defeitos: a narração que inicia e encerra o filme é totalmente dispensável, o uso de sotaques para forçar um estrangeirismo contrastado ao “norte-americano ideal” ou o “britânico polido” é ridículo, boa parte dos diálogos variam entre o constrangedor e o minimamente utilitário e sua reviravolta final é previsível para quem já viu mais de dois filmes na vida, mas não chega a fracassar completamente na sua execução, ajudando levemente no conflito interno da personagem principal. Como sempre, o 3D é utilizado de forma puramente oportunista, mas saindo-se um pouco melhor do que nos filmes anteriores da DC, graças às cenas de ação ambientadas à luz do sol.

Ainda assim, é inegável que o senso de aventura sem maiores pretensões salva o filme de suas próprias armadilhas, contando com cenas de ação bem engendradas e, acima de tudo, apresentando uma história que tem seus espaços para deixar o espectador respirar e não jogar apenas trama em cima de trama ou easter eggs inúteis ou um sem-fim de personagens servindo a única função de forçar a construção de um universo que parece estar desabando sobre si mesmo.

É um alívio saber que nem tudo está perdido após o estabanado Batman vs Superman e o hediondo Esquadrão Suicida. Em meio aos boatos de problemas em franquias dentro de franquias e muitos equívocos para seu estúdio, Mulher-Maravilha surge não apenas como o melhor filme do universo cinematográfico baseado em quadrinhos da DC Comics, mas como uma competente obra que sustenta-se por conta própria sem maiores ressalvas. De quebra, temos agora, oficialmente, a grande heroína do cinema atual.

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