Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi

Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi

O Sul dos EUA já foi alvo – com todo o merecimento – de diversas produções que fustigam a ferida do racismo lá existente, de modo que creio que não há como falar sobre preconceito de cor em solo norte-americano sem apontar a região conhecida por sua predominante cultura agrícola e escravocrata antes da Guerra da  Secessão em 1865.

Mudbound, baseado no romance de Hillary Jordan, com direção e roteiro de Dee Rees (o telefilme Bessie da HBO) abrange um sul pós-guerra civil, entremeado com o ocre das leis Jim Crow, que determinavam a separação entre negros e brancos. Aqui tem-se no horizonte a Segunda Guerra, onde os EUA acreditavam que expurgara o mal maior, enquanto o próprio estava, ironicamente, dentro do seu próprio país, entranhado tal qual a lama e o pó presentes por quase toda a película e que fazem Ronsel (Jason Mitchell, de Straight Outta Compton) encontrar sua felicidade em um local visto como hostil em sua primeira investida.

[…] é um filme que através da expiação de sua sujeira talvez faça alguns espectadores saírem mais limpos.

É complicado estabelecer um protagonista de primeira; embora a história seja observada de maneira convencional, a narrativa é construída em relatos dos vários personagens do Delta, que vão construindo aquele cenário: por Laura McAllan (Carey Mulligan, de As Sufragistas) temos a visão de uma vida extremamente bruta e crua, sem o glamour visto em filmes que abordam o período mais sórdido como … E o Vento Levou e 12 Anos de Escravidão. Pelos pais de Ronsel (e do próprio), o olhar de resistência, resiliência e à procura pelo êxodo, afim de fugir do novo tipo de escravidão ali implantado.

Não só a desglamourização do Sul é presente, como a da guerra, apresentando o stress pós-traumático presente em Ronsel e Jamie(Garrett Hedlund, de Invencível), e na cena em que Pappy (Jonathan Banks, em lugar de conforto de Breaking Bad, mas nem por isso menos extraordinário)  questiona sobre a quantidade de mortos, onde seu filho deixa por terra as “glórias” em exterminar soldados. Sobre os atores, todos funcionam de modo soberbo, com destaque para Mary J. Blige e seus elementos discretos na composição da personagem, como na mistura de vergonha e alegria ao receber a barra de chocolate do seu filho.

Ao termos diversos pontos de vista, criam-se certas subtramas, que procuram atender a obra, mas todas com um tom agridoce e frutos de um desencadear de ações: a perspectiva de Laura – personagem extremamente complexa ao analisarmos sua educação e os conflitos com o que se espera de uma esposa – ao encontrar civilidade nos braços de Jamie termina apenas na consumação do sexo, soa para o espectador como uma vingança aos atos do seu marido Henry (Jason Clarke, de Evereste), porém a personagem é praticamente abandonada pelo roteiro após o evento. É uma das fraquezas do filme.

Outro percalço é a trilha, que embora a escolha de um quarteto de cordas seja acertada e confira um tom rural – e triste, assemelhando-se a trilha do brasileiro Entre Irmãs (2017) – ela perde a mão em alguns momentos e grita, legendando desnecessariamente o momento.

Com uma fotografia bem cuidada, uma das características sutis é a escolha em não diferir os tons dos campos de batalha para os do Delta do Mississipi, aproximando a guerra do campo, e reforçando um dos textos de Laura, onde “você está sempre sendo assediado por coisas mortas”. Quando há diferenças, essa pode ser vista nos interiores das casas dos Jacksons e McAllans: enquanto a família negra tem uma casa de iluminação quente, denotando alegria mesmo com as agruras, os proprietários tem um ambiente melancólico proporcionado pela pintura azulada nos seus interiores.

É no final, onde mesmo impossibilitado de falar, que vemos o irônico retorno de Ronsel acompanhado de sua fala subjetiva e sua mescla de alegria, e tristeza no olhar ao contemplar seu filho, descobrimos o protagonista da história. Mudbound, embora traga uma realidade mais americana, é um filme que através da expiação de sua sujeira talvez faça alguns espectadores saírem mais limpos.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 134
ESTREIA: 19 de dezembro de 2018
DIREÇÃO: Dee Rees
ELENCO: Carey​ ​Mulligan,​ ​Jason​ ​Clarke,​ ​Jason​ ​Mitchell,​ ​Mary​ ​J.​ ​Blige,​ ​Rob​ ​Morgan, Jonathan​ ​Banks​ ​e​ ​Garrett​ ​Hedlund
SINOPSE: Dois homens retornam para casa da Segunda Guerra Mundial para trabalhar em uma fazenda no Mississippi rural, onde lutam para lidar com o racismo e a vida após a guerra.