Jogo Perigoso

Jogo Perigoso

Stephen King sempre pululou na cultura pop pela inspiração trazida das adaptações de romances que escreve de modo voraz: só agora temos Stranger Things que traz um ar de Conta Comigo (1986), a série O Nevoeiro (de 2017, cancelada) e IT: A Coisa que ultrapassou – se não até o término dessa crítica, irá – o legado de O Exorcista como o filme de terror de maior bilheteria. E a Netflix lançou mais um  dos materiais da extensa obra do autor que, como diria o ditado popular, quem sai aos seus não degenera.

Jogo Perigoso, originado do romance de 1992, acompanha Jessie (Carla Gugino) e Gerald (Bruce Greenwood); um casal de meia idade que se refugia em uma casa isolada para reanimar um casamento frustrado. Acompanhando um fetiche do marido, Jessie concorda em ser algemada, pelos dois pulsos, à cama, mas ele tem um enfarto logo após; e o que era para ser uma tentativa de apimentar a relação vira…. várias coisas.

por aí já dá para perceber quão é difícil inserir Jogo Perigoso em algum gênero, uma vez que passeia nos seus três atos por variados temas como se o espectador descascasse várias camadas de uma cebola, e segundo uma cartilha já presente nas histórias de King: aquela pitada de fantasia, drama, tensão … quase como um bingo.

A agonia de Jessie presa à cama surpreende logo de início pelo modo que a narrativa é contada: com a quebra de expectativa de uma luta “solitária” e na divisão da psique da personagem na própria e na personificação de Gerald, seguindo a dinâmica do anjo e do demônio a cochicharem em cada ouvido. É um recurso utilizado pelo diretor Mike Flanagan (O Espelho) que mostra-se teatral (sim, isso é um elogio) e com uma mise-n-scène interessante – que muitas vezes pede para que a câmera fique em um tripé enquanto as “faces” da mente de Jessie divagam. A direção se complica pela falta de sutileza, como apresentar um um plano detalhe para mostrar onde Gerald colocou o copo de água antes de vir a falecer.

A protagonista ao mesmo tempo que luta para sobreviver começa a rememorar as atitudes que levaram-na a ter um relacionamento tão azedo com o marido e desvela uma vida completa de abusos – um tema muito caro em diversas obras do autor – principalmente do seu pai vivido por Henry Thomas e responsável por uma das cenas mais fortes e agonizantes que vi em 2017: um diálogo onde covardemente consegue torcer a realidade e fazer com que Jesse, com doze anos, não conte à mãe sobre o abuso sexual que acabara de sofrer.

Junto com o enfrentamento de todos os males que passou, Jesse ainda consegue espaço para o sobrenatural: uma entidade chamada “O Homem do Luar”, que leva as pessoas ao reino dos mortos e sempre acrescenta um souvenir do “viajante” a sua coleção. E é a parte problemática do filme, uma vez que não tem uma derrocada satisfatória, e pior: a explicação é jogada de maneira tosca, quando funcionaria de modo muito melhor através da diegese, como o fez com o rádio no primeiro ato, um foreshadowing (dica que o filme dá a algum prop ou conceito que será utilizado no decorrer da película). Ademais, não é nem um grande mistério quando imaginamos que sair viva de uma cama presa por duas algemas – e de um cão faminto – é o maior conflito. Cortando o terceiro ato que digna-se apenas a descobrir quem entrou na casa, Jogo Perigoso é uma produção que acerta ao falar sobre abuso, mas complica-se ao enfiar outros conflitos no processo.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Gerald's Game


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 103
ESTREIA: 19 de outubro de 2017
DIREÇÃO: Mike Flanagan
ELENCO: Carla Gugino, Henry Thomas, Bruce Greenwood
SINOPSE: Enquanto tentam apimentar seu casamento em sua remota casa do lago, Jessie deve lutar para sobreviver quando o marido morre inesperadamente, deixando-a algemada na cabeceira da cama.