It – A Coisa

It – A Coisa

Saudosismo não é apenas um charme de It – A Coisa, mas conditio sine qua non para sua existência. Do logo da Warner Bros. forçadamente dessaturado à sensação de estar assistindo a um Conta Comigo que troca a estrada por um palhaço assassino, o filme não parece preocupado em fazer qualquer coisa além de um mexido de referências surgidas das próprias obras de Stephen King, ainda mais adequadas num mundo encantado com Stranger Things.

Quem não está familiarizado com a acima citada série da Netflix e/ou não conhece o romance do qual It – A Coisa deriva, sequer precisa de uma sinopse: cidade estadunidense pequena, anos 80, pré-adolescentes falastrões, ameaça sobrenatural – aqui em forma de palhaço bizarro. O mesmo filme que sai de 3 em 3 anos em Hollywood e ninguém se lembra depois (Oi, Super 8, tudo bem?)

Se o parágrafo anterior soa como má-vontade, não tenham dúvidas de que esse é realmente o caso. Não por desgostar do filme (olha as 3 estrelinhas ali), mas por preguiça de desenvolver sobre algo tão perfeitamente feliz em ser apenas adequado, quase como se estivesse completando uma lista de exigências do gênero e de adaptações de Stephen King. Seria errado esperar a reinvenção em qualquer coisa apresentada por It, sem dúvidas, mas nada prepara o espectador para sustos vazios tão bem filmados, fazendo utilização de lendas urbanas promissoras que rendem, no máximo, um filme impecavelmente trivial.

Quem não arrisca não se prejudica.

Resta ao elenco entregar um bom serviço com suas devidas caracterizações e tiques para personalidades semi-desenvolvidas por um roteiro enxuto demais para lhes dar complexidade e inchado demais para apresentar todos com a devida atenção. Como único destaque mesmo e digno de uma continuação (pronta para ser filmada, obviamente) temos Bill Skarsgård como o palhaço Pennywise, numa atuação exagerada e horripilante no seu approach com garotxs indefesxs, mas de look calculado demais para ser realmente uma ameaça minimamente crível.

Por sinal, essa dicotomia é algo que mantém o filme balanceado durante toda sua duração, afinal, quem não arrisca não se prejudica. Temos: design de produção correto, mas limpo demais para chocar; violência abundante desde que não ultrapasse os limites hollywoodianos; despirocações sobre universos alternativos, mas inteiramente óbvias para não confundir ninguém; atmosfera bem construída e sabotada pela própria falta de confiança do filme em perturbar, rendendo jump scares quando deveria apostar em tensão; metáfora simplória e previsível sobre vencer medos e o poder da amizade frente a adversidades, mas sem maiores consequências para os personagens principais. Entre os poucos acertos, algumas relações sobre abuso com a única personagem feminina do filme,  ela que traz uma boa interação e variedade ao grupo de adoráveis perdedores.

Tudo, obviamente, validado pelo boa e velha década de 80, quando o cinema pegou o caminho do meio (bem mais fácil de conquistar pela emoção barata) e, com raríssimas excessões, dificilmente assaltava sensos e perturbava. Não que saudosismo ou conforto seja problema. Num mundo em que nostalgia virou mashup de referências beirando o fetiche, ao menos It – A Coisa sabe agradar perfeitamente seus pretensos fãs pervertidos.

Felipe Franca
Escrito por Felipe Franca

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It: A Coisa


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 135
ESTREIA: 19 de janeiro de 2019
DIREÇÃO: Andrés Muschietti
ELENCO: Bill Skarsgård, Finn Wolfhard, Javier Botet
SINOPSE: Em uma pequena cidade no Maine, sete crianças encaram problemas da vida, bullies e um monstro que toma a forma de um palhaço chamado Pennywise.