Halloween

Halloween

É muito divertido retornar a alguns clássicos de outrora, seja por seu remake (como Fahrenheit 451, onde revi a versão do Truffaut) ou pela notória experiência de rever com uma nova percepção de mundo; ou melhor: corrigir uma “falha” (se eu denominar os filmes que deveria ter visto, “parafraseando” o David Luiz na fatídica “carta” do Gunther Schweitzer, “vocês ficariam enojados”).

E o primeiro e último motivos me levaram à Halloween, filme de 1978 dirigido pelo às do terror John Carpenter que traz à tona o serial killer Michael Myers (não confundir com o ator Mike Myers, pelamor), um dos ícones dos filmes de terror dos anos 70/80 ao lado de Freddy Krueger e Jason Vorhees (o qual deve muito ao homem de macacão azul e máscara inexpressiva).

O filme de Carpenter intriga desde o início ao apresentar no seu primeiro ato a visão em primeira pessoa de um Myers ainda criança e pior, forçando ao público a “realizar” um assassinato frio no corpo de uma criança sem seu prévio conhecimento. E isso só não basta: a mudança do modo de enxergar o mundo ao colocar a máscara coloca o espectador em outra posição, como se um “modo de caça” fosse ligado, o modo “bicho-papão”, remetendo a alcunha dada por Tommy (Brian Andrews) na segunda fase do filme. Ademais, soo inicialmente apresentados ao antagonista, transformando todos os demais em joguetes após a sua fuga do manicômio.

Assim como as comédias de soft porn da época, Halloween também carrega um ar conservador em que a morte só vem para os adolescentes mais excitados. E aqui temos a final girl Laura Strodel (Jamie Lee Curtis), que aparenta ser a adolescente virginal e que é a única a parear com Myers; essa relação é vista também na contenda dos dois, onde o espectador também degusta a posição de vítima, ocupando, por alguns instantes, a visão de Laura enquanto ela foge do assassino, assim como a cor das vestes da protagonista e do antagonista são azuis. A fotografia auxilia no ar claustrofóbico presente na noite da matança, com grandes sombras escuras e marcadas, contrastando pesadamente com parte do filme que se passa pelo dia, inclusive com uma morte diurna e tensão ocasionada por Myers.

Halloween tem atuações precárias, onde não há um ator de maior destaque (embora Curtis tenha aqui o seu papel de destaque inicial) , mas a direção  tem pontos fortes. A tensão é torturante no passeio de Annie (Nancy Kyes) pela casa, enquanto Myers a perscruta; tanto que quando o ataque realmente vem, torna-se imprevisível. Mas há alguns problemas, como a trilha que sinaliza momentos e é um cacoete típico da época, e uma forçada na cena da perseguição na casa, onde a edição esforça sem um resultado decente em manter Michael descendo a escada por mais tempo que necessita, dando o tempo de Laurel fugir.

Embora Myers também tenha emprestado ao Jason Vorhees sua habilidade de ser “invencível” (o que apesar de ganhar em suspense, termina com a suspensão de descrença), comparando com os slashers da sua época, Myers mata pouco e de forma mais esforçada, o que contribui para a ameaça ser mais vívida. E existe um ponto bem interessante na luta pela sobrevivência que é a negação de ajuda de um vizinho pelos gritos de Laurie, um elemento simples, mas que é uma valiosa peça que demonstra como Carpenter sabe criar um suspense.

Com um retorno marcado para Outubro, Halloween de 1978 inaugura, de certa forma, uma era dourada de muita perseguição, pipoca e sangria com elementos relevantes para a criação de uma tensa atmosfera; embora com um ou outro pecado aqui e acolá. E a gente sabe o que acontece quando se peca nesses filmes, não é?

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Halloween


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 91
ESTREIA: 19 de janeiro de 2019
DIREÇÃO: John Carpenter
ELENCO: Donald Pleasence, Jamie Lee Curtis, Tony Moran
SINOPSE: Quinze anos depois de assassinar sua irmã na noite de Halloween de 1963, Michael Myers escapa de um hospital psiquiátrico e retorna para a pequena cidade de Haddonfield para matar novamente.