Guarnieri

Guarnieri

A primeira coisa que me chamou atenção em Guarnieri foi a forma do título tanto em sua arte promocional quanto no longa: dividido. E não ler a sinopse antes de adentrar ao cinema foi também de uma grata surpresa. “Filme sobre o Gianfrancesco Guarnieri” foi o bastante para me seduzir.

Ao fim do longa, encontrei três formas distintas para tal divisão: a separação entre ator e avô sentida pelo neto – e diretor do documentário – que confessa esse motivo como catalizador; o desequilíbrio da imagem mítica do dramaturgo, compositor e ator perante a sagacidade esperada da sua prole – Paulo e Flávio (falecido em 2006); e o conflito entre o engajamento político e a passividade dos seus filhos.

Essas dicotomias, embora estejam no mesmo homem, são pontos de discussão que não conjugam inteiramente, sacrificando a relação avô-neto apresentada de modo chocante ao colocar Gianfrancesco em um momento terno como o adorável Orlando ao ter uma conversa afável com o seu neto, o personagem Lucas Silva e Silva do programa infanto-juvenil Mundo da Lua. A cena é abruptamente interrompida por dois registros de secretária eletrônica, onde Guarnieri é cobrado pela ausência na vida dos netos, um corte tão hanekeano quanto a cena do controle remoto em Violência Gratuita (1997).

Mesmo que Francisco Guarnieri assuma preencher o vácuo dessa distância num tom mais de bastidores e pessoal, ele opta por estudar o homem que o avô foi: desde cedo engajado nos movimentos sociais de esquerda, militante do movimento estudantil na mocidade e mesmo ciente que a Globo fazia parte de um sistema que optou por combater, compreendia a relação da TV com as massas. A escolha de muito material baseado em entrevistas na televisão leva a crer que o seu objeto de estudo do diretor realmente vivia para o trabalho, mas duas cartas apresentadas justificando os atos do protagonista desfaz – em certa instância – o choque ocasionado pela cena inicial dos áudios.

O conflito é mais pungente quando entramos no teatro Arena, onde Eles não usam Black Tie, seu primeiro e marcante trabalho, que vira filme em 1981, torna-se alegórico para demonstrar o embate entre Gianfrancesco “contra o colonialismo cultural” e os filhos. Há no ar uma certa angústia por parte dos descendentes, mas é com Flávio que o diretor apresenta maior dificuldade em puxar informações, instigando-o – e consequentemente interferindo mais no documentário. Aqui é visto o fardo da sucessão, inclusive pela utilização de recortes da mídia que nos anos 80 os vendiam como uma genial sucessão e pela justaposição de Flávio refazendo uma cena estrelada pelo pai em O Grande Momento (1958).

Indeciso por qual caminho seguir, Guarnieri é válido para ter uma noção do artista que Gianfrancesco foi; e, assim como o diretor, almeja encontrar um elemento pessoal deste. Talvez não exista casca, ou seja, tudo que é visto é íntimo. Talvez ele não tenha cavado tão a fundo. Talvez.

Texto produzido durante a Oficina de Escrita Crítica ministrado por André Dib no XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema, realizado do dia 8 a 15 de novembro. Para ver esta e demais críticas do evento, clique aqui.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Guarnieri


PAÍS: BRA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 71
ESTREIA: 12 de dezembro de 2017
DIREÇÃO: Francisco Guarnieri
ELENCO: Gianfrancesco Guarnieri, Flávio Guarnieri, Paulo Guarnieri
SINOPSE: Gianfrancesco Guarnieri foi ator de grande sucesso na televisão, autor fundamental na história do teatro brasileiro e imagem-síntese do artista engajado. Seus filhos Flávio e Paulo, também atores, assumiram um total distanciamento entre arte, trabalho e política. A partir desses dois retratos geracionais, o neto e diretor Francisco procura refletir sobre o papel do indivíduo na sociedade, na arte e na família.