A Forma da Água

A Forma da Água

Guillermo del Toro tem uma carreira no mínimo curiosa. O diretor mexicano que sempre desponta pelo viés da idiossincrasia no saturado cinema Hollywoodiano parece constantemente falhar artística ou financeiramente quando tenta realizar projetos excessivamente comerciais, a exemplo de Mutação ou Círculo de Fogo.

Por outro lado, quase como contraponto a essa eterna tentativa de conquistar o grande público via ação ou terror convencional, del Toro entrega filmes menores e vistos por muitos como seus maiores méritos cinematográficos, exaltados de joelhos pela crítica especializada e alçados a status cult em obras como A Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno – ambos realizados na Espanha e falados na língua-mãe do diretor.

Chega a ser curioso que tenha demorado tanto tempo para o realizador conseguir unir esses lados de sua persona artística, chegando n’A Forma da Água como o melhor de dois mundos: o amor ao cinema de gênero com pegada intimista e fabular somado ao glamour da indústria Hollywoodiana, sem deixar de lado seu fetiche por criaturas bizarras e violência calculadamente aplicada.

Iniciando a narrativa brincando com o conceito de príncipes, princesas e monstros, chega a ser um alívio constatar que após essa abertura a coisa será comandada com mão menos pesada, e que boa parte das figuras que povoam a trama são vividas com o devido cuidado por seus excelentes intérpretes.

A Forma da Água é um deleite para os olhos.

Sustentado por Sally Hawkins (Godzilla) como Elisa Esposito e sua personagem calcada em inocência sem pronunciar uma palavra, temos nela encarnado o espírito do filme. Repleta de otimismo, o contraste com o vilão Richard Strickland vivido por Michael Shannon (Animais Noturnos) é uma das armas do diretor/roteirista para que o filme flua sem maiores solavancos, e chega a passar despercebida boa parte dos méritos menos óbvios ou superficiais das construções de tais personagens justamente pela imediata empatia que essa relação desperta. A frustração de Strickland compensada com uma compra superficial e a rotina de Elisa contando com uma masturbação subaquática diária são apenas alguns detalhes bem pensados de um roteiro que passa longe de ser original, mas escrito de forma competente.

Tendo em seus personagens coadjuvantes outra arma certeira (e muito mais intrigante), somos apresentados a um artista homossexual, uma faxineira negra e um doutor/espião russo no auge da guerra fria. Como se o “monstro da lagoa” não fosse evidência suficiente, del Toro utiliza essas figuras aparentemente díspares como as reais criaturas marginalizadas num contexto em que o american way of life branco e católico é basicamente uma verdade universal e inquestionável.

Brilhando com um elenco fenomenal e de um carisma sem fim (Richard Jenkins de Kong: A Ilha da Caveira; Octavia Spencer de Estrelas Além do Tempo; e Michael Stuhlbarg de Doutor Estranho), essa é a verdadeira base de um filme que utiliza um romance absurdo para fazer comentários válidos e num contexto curioso, ainda que não exatamente profundos. Troca-se a Ditadura Franquista das obras citadas no segundo parágrafo e fica evidente que esse já um modus operandi para o autor.

Contando com um design de produção apropriadamente exagerado e uma direção de fotografia destacada pela iluminação que privilegia quadros contrastados (não à toa a ideia original era um filme em preto e branco), A Forma da Água é um deleite para os olhos, sendo talvez o mais bem cuidado filme de um diretor que é um dos mais competentes no cinema comercial da atualidade nesse quesito.

A atenção a detalhes e apelo visual trabalhado de forma quase obsessiva é um ponto forte não só para seu realizador, mas também para o espectador que aprecia e percebe a declaração de amor à sétima arte que é o mais novo longa do diretor, às vezes sem medo de soar brega e com direito a forçar cena musical só para martelar que estamos testemunhando justamente isso. Com mais um monstro icônico para o seu cânone, Guillermo del Toro surge mais humano que nunca.

Felipe Franca
Escrito por Felipe Franca

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A Forma da Água


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO: 16 anos
DURAÇÃO: 123
ESTREIA: 20 de outubro de 2018
DIREÇÃO: Guillermo del Toro
ELENCO: Michael Shannon, Michael Stuhlbarg, Octavia Spencer, Sally Hawkins, Lauren Lee Smith
SINOPSE: Em uma instalação secreta na década de 1960, uma zeladora solitária forma um relacionamento único com uma criatura anfíbia que está sendo mantida em cativeiro.