Fahrenheit 451

Fahrenheit 451

No ano de 2018, as livrarias registraram um aumento de 47,42% de acordo com o Sindicato Nacional de Editores de Livros. Mas, o que é lido? Tudo que é lido é importante? E o que se tem produzido (não nos esqueçamos da onda de livros de colorir que impulsionou o mercado)?

Bahrani não entendeu a obra que também roteirizou

Quem acompanha essa maré do mercado editorial e conhece a obra do escritor Ray Bradbury (1920-2012), deve imaginar que o romance distópico que ele tanto imaginou talvez esteja próximo até demais. Criado em 1953, Fahrenheit 451 fala sobre uma sociedade que proibiu os livros em prol de uma vida de autoindulgência e, segundo a mesma, feliz (não à toa o título é referência à temperatura em que as folhas de papel entram em combustão). O livro teve duas adaptações para o cinema: em 1966, sendo o primeiro filme em inglês e a cores de François Truffaut; e agora a HBO traz essa versão atualizada – e muito mais sintética – dirigida por Ramin Bahrani (99 Casas).

O teor crítico que abarca o esquecimento da dos livros em prol da televisão ainda está presente na versão de Bahrani, só que de forma muito leve, focando muito mais nos personagens principais: Guy Montag (vivido por Michael B. Jordan, de Creed e Pantera Negra) e seus traumas pessoais de ser um filho de um rebelde, o Capitão Beatty (Michael Shannon, de A Forma da Água) com sua psiquê e vontade de se exprimir abafada pela sociedade. Não dá para esquecer de Clarisse (Sofia Boutella, de Atômica), mas a personagem infelizmente funciona como o trope* da Manic Pixie Dream Girl** (problema da 1ª versão que poderia ser corrigido). Além disso, a TV foi substituída pela internet e realidade virtual, onde os cidadãos dessa sociedade “feliz” podem opinar sobre as notícias como likes em lives.

Shannon tranquilamente vive seu capitão, com a competência para antagonista já comprovada em A Forma da Água e conferindo alguns traquejos oriundos de Cyril Cusack, ator que interpretou o personagem em 1966. Quanto a Jordan e Boutella, ambos conseguem são carismáticos, mas não são as melhores interpretações dos dois.

O filme da HBO tem um ar muito mais sombrio e ameaçador, onde quase sempre é noite; essa intenção da fotografia lembra muito a Alegoria da Caverna de Platão em que uma sociedade aparentemente contente é cegada pelas trevas da ignorância. Ademais, já que os bombeiros utilizam do fogo, toda vez que o lança-chamas é utilizado confere uma dramaticidade e perigo muito maior na cena, tanto que em momentos onde o fogo é visto no ambiente (latões e demais objetos de cena), o perigo é pressentido. O único momento de luz natural no filme é quando Guy, já envolvido pelo espírito da curiosidade da escrita, entra em contato com as pessoas-livro (pessoas que para não perderem as obras tratam de memorizá-las).

Ainda sobre a fotografia de Kramer Morgenthau (O Exterminador do Futuro: Gênesis), é interessante o uso de cores primárias para pontuar os personagens como três elementos distantes: vermelho para Beatty e sua raiva , azul para Guy e seus traumas e amarelo para Clarisse e a loucura do saber. Essa divisão é importante e volta a remeter ao terceiro ato, em que o verde (mistura do azul com o amarelo) domina o momento em que Montag vislumbra a fazenda.

O grande problema dessa nova versão é, como dito anteriormente, o esmaecimento da crítica em prol de personagens ferramentais, o que mostra que Bahrani não entendeu a obra que também roteirizou: o importante não é a forma física dos livros, e sim o conteúdo – como os homens-livro pregam ao decorar as obras; assim, os personagens são são elementos de uma realidade maior, e essa premissa foi captada no filme de 1966, conferindo um poético final. Aqui, a obra é escalada para um tal Omnis que se agrega ao DNA e… daí já dá para perceber a lambança.

Como um projeto que levou anos para ser desenvolvido, Fahrenheit 451 apresenta muito pouco do universo que poderia mostrar. Ainda mais hoje, com uma realidade onde a opressão da verdade e o espalhamento de fake news dão subsídios para criar uma adaptação muito mais prolífica.

*Trope: instrumento do roteirista para criar uma trama, comumente algum cliché que você encontra nos filmes é um trope, mas nem todos os tropas são clichês. Tem até um site que reúne vários deles.

** Manic Pixie Girl: é um trope. Sabe aquela mulher meio maluquinha, rebelde e que aparece na vida do personagem (geralmente homem) e a transforma? Bem, é essa: e é um trope bastante problemático uma vez que trata-se apenas de uma “seta” com o intuito de apontar algo para o personagem.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Fahrenheit 451


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO: 14 anos
DURAÇÃO: 100
ESTREIA: 19 de janeiro de 2019
DIREÇÃO: Ramin Bahrani
ELENCO: Michael B. Jordan, Aaron Davis, Cindy Katz, Sofia Boutella
SINOPSE: Em um futuro aterrorizante, um jovem, Guy Montag, cujo trabalho como bombeiro é queimar todos os livros, questiona suas ações depois de conhecer uma jovem garota ... e começa a se rebelar contra a sociedade.