Evereste

Evereste

O Everest sempre serviu como uma metáfora óbvia para descrever o alcance de algum objetivo árduo. Sendo assim, um filme com esse título e que se presta a descrever uma subida até o seu pico tem como tarefa principal evidenciar o esforço sobre-humano pelo qual as pessoas que se submetem a tal ato passam, evidenciando dificuldades e riscos. Evereste é um filme competente nesse sentido, chegando perto de ser uma obra puramente centrada na atividade da escalada e, infelizmente, falhando e tornando-se prosaica quando foge disso.

Chama a atenção já nos vinte minutos iniciais o elenco incrivelmente bem selecionado não pela fama ou hype de suas estrelas, mas pelo talento. Assistir a um filme protagonizado por Jason Clarke, John Hawkes, Josh Brolin, Emily Watson, Elizabeth Debicki, Michael Kelly e contando com ilustres participações de Keira Knightley, Sam Worthington e Jake Gyllenhaal (sub-aproveitado, mas divertindo no seu pouco tempo em tela) provam que a prioridade dos realizadores era apresentar uma obra para adultos com interpretações boas o suficiente para segurar um filme de elenco amplo e complementar que servirá de apoio perfeito para a real protagonista da obra: o monte Everest.

Entre os nomes acima alguns merecem destaque. Clarke é o personagem central, no papel de Rob Hall, guia experiente em escalar alguns dos maiores picos do planeta. Como portador de preocupações e cauteloso profissional fazendo contraponto ao bad boy de Gyllenhaal, ele serve como trágico lembrete de que, mesmo com uma suposta tentativa de controle, humanos não são páreo para a fúria da natureza. John Hawkes é um grande ator, mas aqui, infelizmente, apresenta um papel que sofre de coitadismo pleno, algo potencializado pela sua cara de vira-lata abandonado. Josh Brolin como texano arrogante diverte e conquista aos poucos o público, enquanto Emily Watson, como sempre, aquece o coração só com sua presença de voz doce e cara de preocupação constante.

Evereste tem uma trama simples e direta ao ponto. Seus personagens são desenvolvidos o mínimo suficiente para entendermos suas motivações/complicações e partimos direto para a preparação e  escalada. Se o filme seguisse essa linha do começo ao fim teríamos uma obra marcante em mãos, muito mais preocupada com a tragédia de humanos que podem ou não sobreviver independente de preparação e empatia em situações extremas, sem perder tempo com amenidades.

Apesar de humanizar seus personagens e contar com coadjuvantes talentosos para isso, as tramas que fogem das montanhas e tentam uní-los às pessoas na civilização são fracas e poucas vezes agregam valor à obra justamente pelo pouco tempo estabelecido em conhecer as vítimas da tragédia . E o termo tragédia não é usado de forma leviana, já que, ao menos, o filme consegue apresentar as dificuldades físicas envolvidas na escalada desde uma tosse irritante aos ouvidos até o congelamento de extremidades do corpo. Mais importante, as mortes (e não são poucas) são totalmente sem glamour, apresentando uma naturalidade que foge bastante da artificialidade hollywoodiana vista em muitos filmes-catástrofe.

 O 3D convertido da obra é algo a ser discutido pela decepção causada, chamando mais atenção em sequencias fora das áreas montanhosas (a exemplo das cenas iniciais no aeroporto) e sendo deixado de lado quase completamente do meio para o final do longa, quando seu uso seria fundamental, especialmente para um filme que poderia facilmente brincar com imagens vertiginosas a alturas quase inimagináveis para a maior parte de humanos não acostumados a escaladas. Uma cena na qual o 3D funciona perfeitamente envolve uma pequena e precária ponte que (surpresa!) rompe com um dos personagens mais interessantes na sua travessia, num dos poucos momentos em que o perigo mostra-se marcante.

Outro problema do longa é identificar facilmente o que foi feito em montanhas reais e em estúdio. Por mais que a iluminação e chromas sejam relativamente bem feitos em certos momentos é possível identificar planos que não casam e, especialmente, não são convincentes como o topo de uma das maiores montanhas do mundo.

Evereste oferece o que promete e nada mais. Seu elenco estelar talentoso foi escolhido meticulosamente e os aspectos técnicos são decentes. Talvez a sua maior qualidade seja apresentar uma história enxuta, com poucos desvios (alguns desnecessários e óbvios) enquanto a escalada da montanha do título é construída como uma tarefa beirando o impossível e extraordinária. Pena que tais palavras não sirvam para descrever a obra.

Felipe Franca
Escrito por Felipe Franca

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Evereste


PAÍS: REI| EUA | ISL
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 121
ESTREIA: 19 de janeiro de 2019
DIREÇÃO: Baltasar Kormákur
ELENCO: Jake Gyllenhaal, Elizabeth Debicki, Keira Knightley
SINOPSE: Uma expedição ao Evereste é devastada por uma severa tempestade de neve.