Eu, Tonya

Eu, Tonya

Logo nos primeiros minutos de Eu, Tonya, uma frase me chamou a atenção apenas por afirmar a primeira visão que temos de Tonya Harding: ela é totalmente americana. Essa fala logo após corrobora com a dada por Diane, sua ex-treinadora. Essa é sua maldição.

Pertencente a uma classe chamada nos EUA de White Trash – pessoas brancas que vivem na linha da pobreza semelhante a família de Killer Joe (2013) – Tonya Harding (Margot Robbie, de Esquadrão Suicida) sofreu por estar num esporte onde o simulacro da perfeição era extremamente exigido, e sua beleza real estava na autenticidade. O filme apresenta-se como uma versão “Cohenizada” de Cisne Negro (2010), sob o qual a perfeição também não limpa o estigma de ser um reflexo da sociedade a qual vive, acrescentando o fato que a protagonista sofreu uma vida de abusos proporcionados em boa parte por sua mãe, Lavona (Allison Janney, de Tallulah num papel detestável – e isso é bom).

A trilha, embora legende vários momentos de forma gratuita – Devil Woman, representando Lavona; Goodbye Stranger no divórcio, auxilia no clima da produção e dá a sensação de estarmos pisando em plenos anos 80 com aquelas bandas que seu tio mais velho ouve: Chicago, Heart, Dire Fleetwood Mac e ZZ Top. Não à toa, a personagem subverte os bastidores em sua primeira apresentação: enquanto as concorrentes se aquecem, e movimentam-se carregando olhares preocupados, Tonya aguarda seu momento fumando, o que menos se espera de uma atleta. Engraçado é que essa subversão não está apenas no comportamento marrento da patinadora, mas muitas vezes no gênero, onde o treinamento de Tonya é legendado por Diane, numa paródia a filmes esportivos de superação como Rocky – até citado.

E o que inicialmente era motivo de risos nervosos, torna-se um escalonamento para ares de preocupação.

A introdução documental, com uma razão de aspecto bem menor que a apresentado no desenvolvimento da trama cria um distanciamento da estrutura principal, mas que aos poucos começa a “distorcer’ a “realidade”, acarretando nas quebras de quarta parede e colocando Tonya e seu ex-esposo em lados opostos cada vez mais, tanto que até a parte documental rende-se ao formato da película, nos apresentando de forma muito mais incisiva as versões de cada – e dividindo a tela. É interessante a forma que apresentam os personagens, passando um pouco do estilo de cada: Lavona integra-se a um ambiente Kitsch; já Jeff é emoldurado por uma janela com várias imagens de mulheres ao redor barradas, como um aviso.

Mesmo com toda a representação de Harding e dos abusos, a fotografia sombria não nos deixa esquecer que ainda é uma história que também envolve crime, somada à tensão provocada pela câmera na mão, fotografia granulada e com filtro esverdeado – que ganha tons de vermelho mais espessos após “o incidente”, que funciona como ponto de virada para um abuso ainda maior: o do público, que aqui é representado pela nossa curiosidade doentia. Em muitos momentos há pistas sobre esse assédio nosso, como a utilização dos zooms nas faces dos personagens, como se pudéssemos perscrutar a mente de cada um deles.

A presença de um repórter na intro documental já demonstra o assédio midiático em cima da patinadora. Outro exemplo é a cena em que que Jeff fala sobre a debandada dos jornalistas enquanto a TV apresenta a cobertura do caso de O. J. Simpson é uma crítica mordaz ao comportamento carniceiro da mídia que acaba por predar a protagonista.

O modo como o filme aborda o relacionamento tóxico entre Tonya e Jeff utiliza o humor de forma intransigente, já que em muitos momentos as agressões mútuas soam com tons de comédia, diferente dos tons pintados na série Big Little Lies (2017), cuja falta de auto-estima – fora na pista de patinação – da personagem também é a porta para a normatização do abuso. Porém, elementos da narrativa como a ausência de trilha sonora nos momentos de agressão gradativamente pesa os tons da violência. E o que inicialmente era motivo de risos nervosos, torna-se um escalonamento para ares de preocupação.

Pegando carona nas Olimpíadas de Inverno, Eu, Tonya apresenta-se como um ótimo filme com atuações marcantes de Margot Robbie e Allison Janney, colocando camadas mais complexas em uma história que só a mídia deu seu lado.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Eu, Tonya


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO: 14 anos
DURAÇÃO: 119
ESTREIA: 24 de setembro de 2018
DIREÇÃO: Craig Gillespie
ELENCO: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Bobby Cannavale, Mckenna Grace, Caitlin Carver, Bojana Novakovic, Julianne Nicholson
SINOPSE: A competitiva patinadora de gelo, Tonya Harding, ascente entre as fileiras dos Campeonatos de patinação artística dos EUA, mas seu futuro na atividade é lançado em dúvida quando seu ex-marido intervém.