Esquadrão Suicida

Esquadrão Suicida

Aos moldes do Universo Cinematográfico Marvel, a Warner, proprietária da DC Comics, se esforça desde 2013 para promover o seu próprio universo compartilhado. Dona de alguns dos heróis mais icônicos dos quadrinhos, a empresa vem se arriscando com propostas ousadas e perigosas ao trazer tramas megalomaníacas já em seus primeiros capítulos. Seja na proporção em que a ação de “Homem de Aço” propõe em seu cansativo e desinteressante longa quanto nas inúmeras tramas mal rabiscadas em Batman V Superman.

Esquadrão Suicida não aposta em personagens emblemáticos, vide que suas figuras mais conhecidas são apenas pinceladas superficialmente como pistas para projetos futuros. A sinopse já indica a reunião da escória dos vilões da DC, em uma ação proposta pela enigmática e cruel Amanda Weller (Viola Davis), para agir em nome do governo em operações secretas e perigosas demais para humanos comuns.

E é até promissora a forma como diversos desses personagens secundários ganham forma e tridimensionalidade em tela. O Pistoleiro de Will Smith recebe um arco dramático interessante e bem trabalhado para uma figura desconhecida para o público geral; e suas atitudes contrastantes, entre sua vida familiar e seu trabalho como assassino profissional, trazem camadas positivas para o longa. O mesmo pode ser dito sobre a Arlequina, personagem criado para a série de animação do Batman na TV, que tornou-se relevante como o interesse romântico doentio pelo Coringa.

Além de um pretexto para resgatar a imagem do vilão mais simbólico da DC Comics, a Arlequina tem sua história contada de forma interessante, raspando em uma profundidade que, mesmo fragmentada em sua construção como alívio cômico, consegue ser bem esboçada. A relação abusiva (traduzida pela coleira usada por Harley com o apelido do Palhaço do Crime, “Pudim”) de um homem que, através de jogos e manipulação a torturou em direção à loucura, marcando em sua pele seus próprios símbolos ao retirar dela sua própria identidade, uma alegoria fundamental para se discutir nos dias atuais. Seu figurino, sexualizado pelo tamanho e transparência, é capaz de gerar discussões por ser mais uma ferramenta de venda do filme em si, mas funciona por ser desconcertante o contraste que gera com a personalidade débil e infantilóide da personagem, mais um signo proposto pela psicologia (sua própria profissão, aliás) da relação entre infância e sexualidade. A montagem surtada de sua origem é invadida por cores e neon, mais um reflexo da própria distorção em seu olhar sob o mundo.

Com tantos personagens, muitos dispensáveis na realidade, o longa gasta praticamente metade de sua duração para colocar as cartas na mesa e realmente partir para um desenvolvimento. Após uma série de cenas em forma de clipe, onde músicas ícones da cultura pop se misturam inconsequentemente entre suas sequências, a narrativa se demonstra extremamente frustrante ao desperdiçar essa preparação em um conflito irritantemente maniqueísta. O tom soturno que introduz a vilã, Magia, logo é embaralhado em sua própria bagunça por uma ambientação boba e ingênua, recheada de monólogos longos e tons de voz exageradamente empostados.

E infelizmente o mesmo erro transborda para outras searas: o próprio Coringa de Jared Leto, em uma versão aborrecidamente exagerada, se transforma em um dos elos mais frágeis da narrativa. Apesar de funcionar exclusivamente como um acessório para o arco de Arlequina, o destaque dado para o Palhaço do Crime é incrementado pelo seu tempo em tela e apelo público garantido, protagonizando peripércias completamente desnecessárias. O próprio visual e estilo atualizados (uma mistura de rapper e gangster) cria uma dissonância perceptível com a proposta do longa.

A direção de arte denota uma necessidade de fuga ao tom sombrio adotado por Batman V Superman, misturando uma série de cores e formatos que dialoguem com a individualidade de cada personagem. Na maioria absoluta das situações, essa criação de identidade cria redundâncias e obviedades que pouco desafiam a inteligência do público, como tatuagens que, literalmente, descrevem com palavras as características de seus personagens. Tão irritante quanto são as escolhas de conflitos, principalmente a falta de criatividade na construção de mais um raio que sobe aos céus com pedaços de prédios destruídos.

Alguns diálogos conseguem ultrapassar o nível de constrangimento, sendo não só um dom exclusivo da mediocridade do roteiro na criação do Coringa, mas perpassando por diversos personagens. Em determinado momento, algum dos membros do Esquadrão, ao ver o caos e destruição causados por Magia, destituído de qualquer ironia, chega a brilhante conclusão: “Você é má”. Algo que impressiona não só pela redundância, mas por gastar tempo em tela no lugar de preencher as lacunas de uma relação em grupo que peca pela rapidez e superficialidade.

Carregado pela qualidade interpretativa absurda de Viola Davis e Margot Robbie, o longa prova que carisma não pode ser a única salvação de um filme, e estilo não compra uma boa narrativa. Em busca de uma personalidade mais concreta, Esquadrão Suicida termina como um monstro Frankenstein: uma colcha de retalhos que busca agradar mais públicos do que tem capacidade de atingir.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Esquadrão Suicida


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO:
ESTREIA: 23 de julho de 2018
DIREÇÃO: David Ayer
ELENCO: Margot Robbie, Jai Courtney, Scott Eastwood, Will Smith
SINOPSE: Uma agencia Secreta do Governo recruta super vilões presos para executar missões suicidas em troca do seu perdão.