Em Ritmo de Fuga

Em Ritmo de Fuga

Desde a sua cena inicial, Em Ritmo de Fuga mostra a que veio. Ao som maníaco de Jon Spencer Blues Explosion, temos uma perseguição automobilística e, também, o resumo perfeito das muitas virtudes e específicos problemas relativos ao filme e seu protagonista.

Forçando os limites entre longa realista para seus coadjuvantes e cinema semi-musical que existe circunstancialmente para justificar o personagem principal Baby e sua condição física/psicológica, o diretor Edgar Wright demonstra a evolução de sua assinatura autoral, mas some parte do charme bonachão pelo qual é conhecido ao enveredar pelo cinema que privilegia a ação. Em resumo: ganha-se um muito perdendo-se um pouco.

Ansel Elgort (Cidades de Papel) encarna Baby, o “driver” (AKA piloto de fuga) exclusivo do criminoso Doc (Kevin Spacey, de Quero Matar meu Chefe 2) para roubos que exigem escapadas arriscadas, transportando ladrões de toda sorte. O que o diferencia dos bandidos que o rodeiam  – além de uma já previsível inocência quase absoluta – é o fato de sempre portar headphones e usar a música para afogar o contínuo tinido em seus ouvidos. Como se isso não fosse caraterístico o suficiente, ele ainda brinca de remixar os sons e diálogos ao seu redor, uma bem posta metáfora para um sujeito que aparentemente sofre de alienação sobre sua condição e a reconfigura  da única forma que entende.

Contando com uma trilha musical bem pensada, é caminho fácil descrever as canções que permeiam o filme como um dos personagens, mas também reducionista, já que Wright sempre foi um mestre em brincar com ritmos, seja visualmente, engrandecendo imagens via uma montagem que funciona com precisão milimétrica, e/ou pelo desenho sonoro, demonstrando ao longo de sua carreira que é um dos poucos que sabe usar o áudio como elemento intrínseco às suas narrativas, seja para complementar gags ou transicionar entre cenas de forma impactante.

Em Ritmo de Fuga retorna esse talento e o potencializa de forma quase inédita no cinema de entretenimento hollywoodiano, contrastando com produções nas quais músicas são jogadas a esmo de forma promocional e a utilização de som é puramente utilitária (quando não totalmente histérica). A maior evidência da boa direção por trás do longa é o fato desses detalhes estarem presentes em momentos tanto de ação brilhantemente dirigidos quanto em singelas cenas de diálogos entre dois ou mais personagens.

Contando com o mais estelar elenco com o qual já trabalhou na vida, Wright utiliza o talento dos envolvidos de forma apropriada. Spacey, nosso querido presidente, faz o básico que lhe é exigido, mas com a competência de sempre. Jamie Foxx (O Espetacular Homem-Aranha 2) brilha como Bats, sendo por si só um ponto de conflito, o ladrão malandro que não confia em ninguém e no qual é impossível confiar. Jon Hamm utiliza seu carisma e versatilidade para distanciar-se cada vez mais do icônico Don Draper, papel que o lançou ao mundo na série Mad Men. Talvez o único questionamento real do elenco seja o próprio Ansel Elgort como Baby, muitas vezes parecendo alheio ou inocente demais para causar qualquer impacto ou empatia. Infelizmente, a culpa não é exclusiva do intérprete, mas da lógica do filme e seu roteiro relativamente previsível ou que, no mínimo, traz poucas novidades.

A escolha de humanizar Baby através de um trauma de infância e forçar constantemente sua natureza inocente, quase angelical, via música (especialmente quando está distante de suas desventuras criminosas) torna o filme de duas naturezas distintas que parecem não juntar-se homogeneamente, e isso tem a ver com o visto já na cena inicial: ainda que Baby seja inconsequente, a sua “queda” em determinado momento não tem impacto suficiente justamente por não apresentar uma gravidade necessária em seu background além de flashbacks e um interesse amoroso que tem pouco tempo para ser desenvolvido. Sua única conexão com o mundo normal é um velho que praticamente grita “sou frágil e estou aqui para ser vitimado em algum momento por um dos seus colegas capangas”.

Junta-se a isso um ar retrô charmoso visto previamente no excelente Drive, onde temos o par romântico com uma garçonete e o protagonista que apresenta algum tipo de Autismo Altamente-Funcional, um acidente de carro que parece copiado  sem impacto de Enter the Void, e a nostalgia por fitas cassetes ligadas ao trauma de mãe morta visto em Guardiões da Galáxia… fica evidente que Wright está lidando com um gênero batido, explorado ad nauseam, e o que trouxe visual e tematicamente é repetido de outros cantos sem muita renovação. Ainda que Em Ritmo de Fuga seja inegavelmente um filme de Edgar Wright, é quase impossível não perceber, também, que o cineasta está funcionando em modo Tarantino em diversas cenas, especialmente quando surge o título da obra na tela. Ao menos, quando está sendo exclusivamente ele mesmo, o diretor ainda traz excelentes rimas visuais, dirige cenas de perseguição com excelência, não apresenta vilões óbvios e traz motivações bem justificadas para os conflitos de todos os envolvidos  – exceto o próprio Baby, infelizmente.

Apresentando aqui e ali o humor pelo qual é conhecido (atenção para tatuagens, personagens conhecidos da cultura pop e crianças mais inteligentes do que aparentam ser), Em Ritmo de Fuga é cinema propulsivo de qualidade, no qual técnica e narrativa encontram-se não apenas em sintonia, mas coexistem de forma indissociável e brilhante. Ainda que apresente problemas, Wright acerta mais uma vez, agora jogando-se em curvas sinuosas.

Felipe Franca
Escrito por Felipe Franca

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Em Ritmo de Fuga


PAÍS: REI | EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 115
ESTREIA: 19 de janeiro de 2019
DIREÇÃO: Edgar Wright
ELENCO: Lily James, Jon Hamm, Jon Bernthal, Kevin Spacey
SINOPSE: Após ser forçado a trabalhar para um chefão do crime, um jovem piloto de fuga percebe-se parte de um assalto destinado a falhar.