Doce Argumento

Doce Argumento

Envelhecer faz com que você mude a perspectiva de algumas coisas; tomemos como base o clássico oitentista Curtindo a Vida Adoidado: na época que vi pela primeira vez, eu imaginava “que dia louco!”. Hoje, revendo o filme, penso alarmado “Meu Deus, onde estão os pais desses meninos?”. Claro que dá sim para ter uma percepção de outrora, mas algumas afinidades vão se constituindo e você, em suma, começa a realmente entender seus pais. E em certa forma, Doce Argumento, reflete essas duas posições ao trabalhar com uma das maiores pressões da adolescência: a entrada para a universidade.

Num domingo preguiçoso e quer ver algo juvenil e levinho?

O filme original da Netflix constitui uma batalha no clube de debate da Hemlock University, onde Lona (Sami Gayle, de Noé) e Bennett (Jacob Latimore, de Detroit em Rebelião), eternos rivais, disputam a posição de melhores em torneios estaduais escolares, afim de ganharem méritos e facilitarem a entrada nas conceituadas universidades de Harvard e Yale, respectivamente. Só que por trás há a disputa de suas mães, Amy (Christina Hendricks, de Mad Men) e Julia (Uzo Aduba, de Orange is The New Black) que tem uma relação mal resolvida desde o colegial.

O que negativamente chama a atenção é a fotografia chapada, digna de filmes bem meeiros feitos para a TV e, em tempos pós-Breaking Bad é muito complicado não ter esmero. Alia-se também uma direção bem básica de Ben Shelton (desculpa o trocadilho), com momentos que soam até amadores ao utilizar movimentos de câmera durante a cena quando cortes secos aparentariam muito mais efetivos.

Dos poucos méritos obtivos estão as interpretações dignas e o roteiro que, embora superficialmente, trate de pontos importantes como a perda da adolescência ocasionada pela pressão exercida pelos pais para a entrada na universidade, como esta fosse a única porta para um futuro. A estrutura familiar dos dois jovens também é considerável: ambos sem pais, com mães que dão duro e com uma variação que posiciona a família negra como rica e a branca como pobre.

A primeira metade do filme é extremamente boba, com cenas pouco inspiradas, onde a rima das ações de Lona e Bennett são os únicos pontos de mais graça. A estrutura do roteiro também causa estranhamento, uma vez que os pontos de virada são bem próximos, de modo que assemelham-se a apenas um: a perda da classificação no “vestibular” e a morte da orientadora Kathy (vivida por Helen  Hunt), praticamente o único ponto de ligação entre os estudantes.

A partir daí tudo começa a ficar mais interessante, sombrio e dramático. Pena que o filme se trai, não sabendo lidar com a frustração de um fracasso e aprendendo a se virar – como visto em Frances Ha, por exemplo. Num domingo preguiçoso e quer ver algo juvenil e levinho? Essa pode ser uma boa opção.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

Ainda não há comentários.

Ninguém ainda deixou um comentário para esta publicação!

Deixe uma resposta

Doce Argumento


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 92
ESTREIA: 20 de outubro de 2018
DIREÇÃO: Ben Shelton
ELENCO: Jacob Latimore, Sami Gayle, Tom Bergeron, Uzo Aduba, Christina Hendricks
SINOPSE: Os campeões de debate do colegial que estão em desacordo sobre quase tudo avançam com planos ambiciosos para entrar nas faculdades dos seus sonhos.