Divercine

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O XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema, em parceria com o Divercine (Festival Internacional de Cine para Niños y Jóvenes do Uruguai) abriu uma sessão com oito filmes ficcionais e animados de várias partes do mundo dedicados ao público infanto-juvenil. E lá eu estava.

A sessão começou com O menor homem do mundo (2016), produção franco-argentina dirigida por Juan P. Zaramella, um apanhado de esquetes envolvendo o mini-homem; e embora cômico, o curta não dá espaço para curtir as gags, pois, ironicamente, é o menor da sessão.

Também misturando animação com live action, o mexicano Cassiopéia, dirigido por Paulina Urreta, um dos mais profundos e longos (18 minutos). Carregado de simbolismos, o curta apresenta o escapismo de uma garota para afastar-se das discussões dos seus pais. As cores representam o simulacro das relações: a fachada da casa tem tons alegres em amarelo, enquanto a mochila da protagonista e a parte interna do lar reserva cores azuis, representando a tristeza que a garota carrega do ambiente familiar. O uso do silêncio e dos planos da garota na solidão do cotidiano fazem da produção parecer ser mais longa do que é, experiência quebrada pelo final onde animações rachuradas circundam a menina acompanhadas da trilha. Ainda assim é uma alegria contida, principalmente pelo uso monocromático do branco para representar a imaginação da menina em movimento.

Com um tema toada mais séria, também temos o espanhol Dente-de-Leão, de Jorge Bellver; O Rapto, curta colombiano de José Luis Jímenes Díaz; e o lituano Luzes Caminhantes, de Gedminas Syalis. Ode à esperança para a questão dos refugiados, o primeiro utiliza da metáfora do voo da semente como a gestação de uma nova vida intercontinental, passando por ambientes inóspitos e quase sempre de tons alaranjados. A viagem traz uma sensação onírica, causada pela escolha de um estilo mais contido e cuja fluência das imagens é realizada por fades.

Já Días n’ O Rapto permite-se ser mais simples do que seus colegas. Ao abordar a falta sentida por uma criança pelo seu pai raptado por bandidos (o mesmo é apresentado acorrentado), resgata aventuras oitentistas e temerárias de uma criança; abordagem muito em voga nos dias de hoje ao balizarmos com os fenômenos Stranger Things e It: a Coisa, cujo remake tornou-se um dos filmes mais vistos do ano.

Em Luzes caminhantes, o mais fascinante pela miríade de cores em sua técnica, aborda a morte e vida pelo olhar de duas crianças, de idades diferentes. Uma visão suave e urgente, auxiliando pais a lidarem com o assunto de forma mais lúdica, assim como visto em animações mais comerciais como Festa no céu (2014) e o futuro Viva, a vida é uma festa (previsto para 2018 no Brasil), que cooptam o Dia de los Muertos para abrandar a inevitabilidade do fim.

Para os espectadores que tiveram uma experiência com programas infantis da TV Cultura, O Menino e o ouriço – Marc Riba e Anna Soares, Espanha – soará nostálgico devido ao uso de stop-motion e terá uma visão mais interessante devido ao descolamento da mocidade para a idade adulta. No acerto entre o garoto e o Ouriço dono de um balanço que dá asas, mesmo tratando-se de um universo fabulesco, o plano geral que apresenta o menino ao sabor do vento torna-se aflitivo ao considerarmos o abismo em frente. Mas no fim, tudo fica bem.

Mais convencional, o bolivaro-sueco Gatos e cachorros, de Jesus Perez, apresenta um ilustrador – apenas sua mão aparece – que através da eterna rixa entre gatos e cachorros fala sobre amizade, companheirismo e amor. Nesse, a figura do Deus ex Machina através da conhecida técnica de ilustração quadro-a-quadro desenvolve seus personagens. É uma mensagem simples e universal.

As cantigas de Leonor tem a música como espinha dorsal: as viradas da bateria, a entrada de novos sons na canção, ritmo e demais características da trilha que ditam a montagem e os momentos alívio ou tensão do curta chinês de Quentin Paquignon, onde inexiste efeitos sonoros. E a relação do homem com a música, utilizando o poder de uma sala de cinema, torna a dualidade entre sonho e realidade da protagonista uma experiência tocante.

Por último, o leve Sabaku, de Marlies van der Wel, conjuga muito com a forma das animações mais comerciais de hoje, principalmente os curtas da Pixar – aliás, certa cena remete a For the Birds (2000). Os traços que assemelham-se a pinturas de lápis-de-cor aproximam o público jovem, a premissa de uma galinha de grasnido “diferenciado” que busca por um igual, brincando com os sons dos animais é divertida e a diferenciação de cada ambiente que a personagem passa, tornam a produção holandesa dinâmica.

Em pouco menos de uma hora, rodei o mundo e tive o prazer de degustar um pouco de cada uma das animações: algumas mais doces, outras mais salgadas, mas com a grata surpresa de que todos proporcionaram o que os filmes podem oferecer de melhor, uma boa conversa; nesse caso com minha filhota ao lado, que procurava “a lógica” – palavras dela – de cada curta. Pelo visto, o trabalho foi bem-feito.

Texto produzido durante a Oficina de Escrita Crítica ministrado por André Dib no XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema, realizado do dia 8 a 15 de novembro. Para ver esta e demais críticas do evento, clique aqui.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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PAÍS: URU
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO:
ESTREIA: 12 de dezembro de 2017
DIREÇÃO:
ELENCO:
SINOPSE: Festival Internacional de Cine para Niños y Jóvenes do Uruguai.