Desobediência

Desobediência

É entendível a rigidez da comunidade judaica; quase expurgados após a Segunda Guerra Mundial, para manterem a unidade enquanto povo foi necessário se apegarem às suas tradições. Entretanto, mesmo após décadas e a criação de um estado, algumas comunidades mais ortodoxas ainda refutam pontos que agregariam ainda mais não só para o grupo étnico-religioso, mas para as demais religiões. A questão de gênero é uma delas.

E o diretor Sebastián Lelio, já caro com essas questões após seu último filme – Uma Mulher Fantástica – traz o amor entre mulheres incendiando uma comunidade judaica em Desobediência, filme baseado no romance de Naomi Alderman que o faz debutar entre as produções americanas. A produção é quase ausente de cores vivas, predominando os tons de cinza, senão o preto e o branco, demonstrando a rigidez daquele universo regido pela religião. A direção segue de forma naturalista, evidenciando o desconforto de Ronit (Rachel Weisz, de A Luz Entre Oceanos) a cada aceno de um parente ou conhecido que corta o menor início de conversa e a cada negação ao tentar acender um cigarro.

Em companhia, o uso da trilha para apresentar esses nuances é feita de forma magistral: ao Ronit saber da morte do pai no primeiro ato, os eventos que vem a seguir são ornados com sons que mesmo diegéticos (pertencentes ao ambiente), o abafamento destas apresenta o torpor que a personagem sente ao receber a notícia. Já na sua cidade natal, a trilha quase monotônica vai recebendo toques quase fabulescos de violino e flauta, que mesmo acompanhando a composição, causam um alegre estranhamento, demonstrando que algo que não sabemos está acontecendo.

Pouco a pouco o espectador vai recebendo subsídios pra entender o quadro geral e as interferências na trilha vão ganhando sentido, como a rispidez de Esti (Rachel McAdams, de A Noite do Jogo). Logo, não temos surpresa e somos agraciados com o clímax quando há o real encontro de Ronit e Esti. E mesmo quando a trilha não está presente, o silêncio e as canções judaicas impõem peso, como a cena próxima ao terceiro ato em que a câmera avança lentamente para o rosto de Dovid (Alessandro Nivola, de Selma) em que sabemos tudo que passa pela sua cabeça e o cântico só ajuda a tornar tudo mais dramático.

É possível entender os pontos dos três personagens, que apresentam uma poderosa mensagem sobre sexualidade e liberdade – e os conflitos que a busca por tal em determinadas sociedades judaicas pode acarretar – que me fez lembrar do documentário da Netflix One of Us. Nesse caso, os personagens que compões a trama são almas sufocadas por deus dogmas e destinos, seja Dovid pelo destino de tornar-se o sucessor do patriarca; Ronit por ser reconhecida como filha, e Esti por… ser ela. Não à toa na sinagoga, onde o filme inicia e termina, os três são, de certa forma, libertos.

O agridoce final é corajoso e, porque não, feliz: tratando-se muito mais de uma questão de auto conhecimento antes de abrir-se para o mundo em que a coprotagonista teve pouco contato. Acrescenta-se à formação de Esti composta pelas duas realidades: a de Dovid pelo filho que gera e pela procura por Ronit, que rememora em seu passado.

Desobediência é mais um acerto de Lelio na composição de suas histórias, fugindo de clichês e trabalhando com as agruras da sexualidade com a sutileza e poesia que a humanidade necessita.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Desobediência


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO: 14 anos
DURAÇÃO: 114
ESTREIA: 23 de julho de 2018
DIREÇÃO:
ELENCO: Rachel Weisz, Rachel McAdams, Alessandro Nivola
SINOPSE: Uma mulher retorna para sua cidade natal após a morte de seu pai. Lá, ela recorda uma paixão proibida pela melhor amiga de infância, que atualmente é casada com seu primo.