Corra!

Corra!

Uma grande característica do terror como gênero é que a metáfora utilizadas pelos bons filmes comumente provém dos medos que a sociedade enfrenta naquele momento; logo o projeto de Jordan Peele chega com fulgor nesse períodos turbulentos. E Corra! encaixa-se nessa linha devido a criativa escolha em levantar o racismo como elemento aterrorizante – embora o filme seja muito mais focado no suspense.

No filme, Chris (Daniel Kaluuya, da primeira temporada de Black Mirror e Sicario) realiza uma visita com sua namorada Rose, (Allison Williams da série Girls) a fim de conhecer seus sogros. Negro, Chris tem noção de toda problemática acerca de uma relação interracial nos EUA, porém cede e viaja ao encontro da família da sua esposa, descobrindo que as coisas não são tão amigáveis quanto parecem ser.

Apesar de recorrer a alguns elementos já propícios do gênero (o velho clichê do bicho atropelado na estrada, por exemplo), Corra! utiliza aspectos mais “modernos” para causar tensão; devido ao olhar negro na direção e roteiro, um policial branco torna-se aterrorizador (como visto recentemente na série Dear White People, da Netflix).

Ainda sobre racismo, a questão da tokenização do negro é abordada especialmente no “petit comité”: não, votar no Obama, exaltar estereótipos como ” o negro ser bom de cama e eficaz em esportes”, além de empregados “quase da família” (assim como visto sob a ótica nordestina no nacional Que Horas ela Volta) não fazem as pessoas menos racistas. E essa argumentação não é tão explícita, sentida pelo espectador através do desconforto do protagonista entre cada infeliz argumentação solta durante as rodas de conversa.

No mais, o filme tende a ser esquemático, principalmente nas rimas de pista-recompensa que soam óbvias, como o som ritmado da colher na xícara como vetor para a hipnose (oportunidade perdida da equipe de design de som em trabalhar com a diegese) e do enchimento da poltrona como tampão de ouvido. Mas o filme trabalha bem com o “foreshadowing” (técnica narrativa que oferece ao espectador dicas sobre o enredo) como no arrumar das malas entre Chris e Rose, onde ele pergunta se os pais dela sabem se ele é negro, pois quer evitar que alguém corra atrás dele com uma espingarda – o que realmente acontece; da morte de um dos antagonistas pela galhada de um cervo, significativa vingança após todo discurso inicial de extermínio remetido pela vitima da chifrada; e o carro de polícia do último ato.

Os atores realizam papéis funcionais e transmitem o necessário para a credibilidade, inclusive no experimento “filme B” do terceiro ato, mas uma das responsáveis pelos momentos mais bizarros certamente é a atriz Betty Gabriel no papel da governanta Clementine. Ponto também para Lil Rel Howery que interpreta o hilário Rod, o amigo de Chris e responsável pelas quebras de tensão com um personagem que ganha destaque a partir da segunda metade do filme. Mesmo com sua função cômica, Rod explicita para o espectador as agruras da sociedade negra e atenta também para um certo descaso policial quando a vítima não é da cor “certa” ao ver o sumiço de jovens pela internet e mesmo na ida à delegacia o caso não é visto com uma certa seriedade – tá, a construção do evento pelo personagem não ajuda e cria uma boa cena de humor.

Apesar de não ser tão grande quando incensado pelo hype exterior, Corra! tem sua importância nos dias de hoje pela ideia de entender e desenvolver a metáfora do horror que boa parcela da população passa. E chega a ser tão fatal quanto.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Corra!


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 104
ESTREIA: 12 de dezembro de 2017
DIREÇÃO: Jordan Peele
ELENCO: Lakeith Stanfield, Allison Williams, Bradley Whitford, Daniel Kaluuya
SINOPSE: A história acompanha um final de semana na vida de Chris (Daniel Kaluuya), um jovem afro-americano que visita a propriedade da familia de sua namorada. A princípio, Chris vê o comportamento exageradamente hospitaleiro da família como uma tentativa desajeitada de lidar com a relação interracial da filha, mas, no decorrer do final de semana, uma série de descobertas perturbadoras o levam a uma verdade que ele nunca poderia imaginar.