Cargo

Cargo

Ah, Straya… onde seus outbacks até hoje só me lembram o ótimo filme de terror de 2005, Wolf Creek – Viagem ao Inferno (tão bom que rendeu uma série). E na mesma esteira de filme adquiridos pela Netflix, apare Cargo, filme estrelado por Martin Freeman (O Hobbit – A Batalha dos Cinco Exércitos, Pantera Negra) e dirigido a quatro mãos por Ben Howling e Yolanda Ramke. Ambos diretores estavam por trás do curta que gerou este longa, e que foi finalista do Tropfest Australia 2013, mas agora com um resultado subnutrido.

Em uma Austrália pós-apocalíptica, um vírus transforma as pessoas em zumbis. Esse vírus é transmitido através da mordida de infectados e a pessoa padece por 48 horas de determinados sintomas como tremores, vontade de comer carne crua, vômitos de sangue e por ali vai; nada muito novo senão a excreção que sai da ferida e dos olhos do indivíduo, que foi um detalhe nojento e legal.

Mas o filme tenta esquivar-se desses feitos espectaculosos de um filme de zumbi convencional e mostra-se determinado a apresentar a jornada do seu protagonista em encontrar alguém que tome conta da sua filha, uma vez que ele é infectado pela esposa. E aí começa a peregrinação em tons de road movie. Mas o filme não tem muita madeira para queimar, acarretando na falta de desenvolvimento dos personagens e coadjuvantes, tornando até o amor do pai pela menina em algo frágil.

A sanha em manter o filme sempre controlado nubla o espectador de perceber as emoções oriundas: os momentos de terror são privados do espectador, não de forma hanekiana visto em Violência Gratuita, onde grande parte da “ação” o diretor destina a imaginação do público. Aqui, um zumbi vai morder alguém. Antes de morder, corta. É apenas coito interrompido. Em todos os momentos mais climáticos. A maior pancada, se possível, é a solução dada por um pai de família no terceiro ato, que ganha um peso maior por não ter sido apresentado nada de empolgante na jornada. Acrescentando a sopa de chuchu, uma fotografia dessaturada, perfeita para o trajeto.

Freeman consegue transmitir o autocontrole de um lorde inglês para quem tem apenas 2 dias de vida e necessita deixar sua filha em mãos seguras; até o antagonista não tem muito sentido em existir: um white trash ganancioso e racista acumulador, que espera ganhar dinheiro através da pilhagem de zumbis. E esse pano de fundo só serve para dar um ar político ao filme sobre a questão aborígene, mas é tão blasé que nada fica.

É de se pensar também se a intenção era navegar nas alegorias tão clássicas de George A. Romero, mas não. A perspectiva aqui é tão passiva que a mera ideia de um subtexto mais profundo soa forçada. Cargo pode ter empolgado em seus 500 metros de curta, mas é preciso treinar muito mais para a maratona de um longa metragem.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Cargo


PAÍS: AUS
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 105
ESTREIA: 15 de agosto de 2018
DIREÇÃO: Ben Howling, Yolanda Ramke
ELENCO: Martin Freeman, Anthony Hayes, Susie Porter
SINOPSE: Depois de uma epidemia espalhada por toda a Austrália, um pai procura por alguém disposto a proteger sua filha.