Blade Runner 2049

Blade Runner 2049

Abrir um filme no extreme close up de um olho torna-se algo além de referência quando trata-se de Blade Runner e sua sequência, que chega aos cinemas 35 anos após o filme de Ridley Scott (Alien Covenant) marcar o cinema como uma das obras esteticamente mais influentes já realizadas no audiovisual.

Situado 30 anos depois da película que lhe deu origem, somos apresentados a K (Ryan Gosling, de La La Land), um caçador de andróides que descobre acidentalmente o esqueleto de uma replicante grávida – algo que todos imaginavam ser impossível. Para evitar que tal descoberta traga um conflito entre replicantes e humanos, K inicia uma investigação sobre o paradeiro da criança, algo que o levará ao encontro do foragido Deckard (Harrison Ford, de Star Wars: O Despertar da Força).

Tiremos logo do caminho: roteiros cretinos são o grande mal do cinema Hollywoodiano moderno, e o fato de BR2049 conseguir criar algo tão fora dos padrões, de visão forte e multifacetada como esse filme, é mérito tanto para a Sony quanto a Warner Bros. Sem perder tempo com auto-referências rocambolescas, ao mesmo tempo em que não despiroca demais para o desconhecido, a aposta por um roteiro muito mais complexo que o Blade Runner de 1982 e com pouquíssimas concessões a um público preguiçoso seria mérito por si só. Contando com diálogos inteligentes e uma trama bem construída, Hampton Fancher e Michael Green ampliam o universo antes apresentado de forma admirável, com personagens ainda mais fascinantes.

Provocando e brincando com conceitos de inteligência artificial, realidade aumentada, bioengenharia e vigilância constante em níveis que farão boa parte de sua audiência nem mesmo perceber que está lidando com fatos concretos para suas vidas atuais (a exemplo da codependência de K por Joi), BR2049 ganha pontos por criar um futuro não apenas palpável, mas completamente plausível e, sem dúvidas, compatível com nosso presente.

Deakins comprova por que é um dos grandes em atividade, tornando-se parte indissociável dos vários méritos do longa

No comando, Denis Villeneuve (Sicario), diretor versátil e um dos grandes criadores de atmosfera do cinema atual, que parece ter nascido para dirigir BR2049, não apenas pelo respeito que tem ao original, mas também por saber empregar perfeitamente sua direção gélida e calculada, acertadíssima quando o assunto é retratar isolamento e desilusão existencial, fazendo desse um dos blockbusters mais idiossincráticos desde Mad Max: Estrada da Fúria.

Com uma violência esparsa, crua e sem massagem, BR2049 cansará o espectador comum com suas longas duas horas e quarenta e três minutos, num filme que apresenta suas cenas de ação quase como complemento ao drama e mise-en-scène pensados milimetricamente, apostando em tensão no lugar de adrenalina forçada e descerebrada – qualquer filme que utilize sua própria natureza de obra vs. criador citando Fogo Pálido de Nabokov está fadado a esse destino, imagino.

Sem esquecer do mundo multilíngue, decadente e de neon quase opressor, temos um design de produção impecável e digno de fazer qualquer fã de cinema babar para além do fan service ao recriar e simultaneamente ampliar Blade Runner. Complementando tudo isso, seria quase irresponsável da Academia negar mais uma vez o Oscar ao gênio cinematográfico que é Roger Deakins (Ave, César!), num trabalho de fotografia que entra automaticamente para a história não apenas por criar quadros visualmente marcantes, mas por saber aliar o estilo de Villeneuve a um universo previamente existente de forma orgânica e ampliando horizontes do que o cinema de grande orçamento pode (e deveria) oferecer. Casando magistralmente urbe em colapso e desertos pós-apocalípticos sem deixar um plano sequer cair na banalidade, Deakins comprova por que é um dos grandes em atividade, tornando-se parte indissociável dos vários méritos do longa.

A música de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch também servem como reflexo perfeito do filme, remetendo aos marcantes temas compostos por Vangelis, mas sem precisar descambar para o óbvio, utilizando sintetizadores de forma orgânica e sendo até mais bem sucedido do que o original e alguns de seus eventuais exageros sonoros datados.

Apesar de soar como sacrilégio para alguns, não seria absurdo dizer que Ryan Gosling entrega aqui algo superior a Harrison Ford no longa de 1982, carregando o filme com muito mais facetas, dilemas e tendo de lidar com problemas ainda mais desconcertantes do que Deckard na sua monótona trama anterior. O veterano, por outro lado, prova que seu retorno não é apenas uma participação especial, acrescentando uma dimensão extra para o filme e uma bagagem enorme, aproveitada plenamente pelo roteiro. Jared Leto (Esquadrão Suicida) é um exagero divertido no pouco que aparece, mas longe de ser marcante. Ana de Armas é responsável por ser o coração (artificial) de algo que poderia simplesmente patinar tranquilamente pelo calculismo visual, enquanto Robin Wright (Mulher Maravilha), Sylvia Hoeks (A Melhor Oferta), Mackenzie Davis (Perdido em Marte) e Carla Juri (Zonas Úmidas) povoam a trama entre vilania e inocência com charmes individuais e talento invejável em suas respectivas partes.

Tratando o longa original com a reverência e distanciamento adequados, BR2049 não tem medo de ser ao mesmo tempo uma continuação que sustenta-se sobre suas próprias pernas e uma homenagem em nível conceitual às suas obras progenitoras (nunca esqueçamos de Philip K. Dick), o extremo oposto de Star Wars – O Despertar da Força em sua covardia narrativa/temática e previsível sucesso comercial. Em outras palavras, um triunfo cinematográfico e artístico, tão fracassado financeiramente quanto suas origens, mas também um clássico cult desde o surgimento.

Felipe Franca
Escrito por Felipe Franca

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Blade Runner 2049


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO: 14 anos
DURAÇÃO: 163
ESTREIA: 12 de dezembro de 2017
DIREÇÃO: Denis Villeneuve
ELENCO: Ryan Gosling, Harrison Ford, Ana De Armas, MacKenzie Davis, Sylvia Hoeks, Lennie James, Carla Juri, Robin Wright, Dave Bautista e Jared Leto.
SINOPSE: Trinta anos após os eventos do primeiro filme, um novo blade runner, oficial K (Ryan Gosling), descobre um antigo segredo que tem potencial de jogar a sociedade no mais absoluto caos. A descoberta de K o leva ao encontro de Rick Deckard (Harrison Ford), um oficial aposentado que esteve sumido desde os últimos 30 anos.