Bingo – O Rei das Manhãs

Bingo – O Rei das Manhãs

Conhecido como um dos montadores mais aclamados de sua geração, Daniel Rezende, colaborador de Fernando Meirelles em Cidade de Deus (2002) e de José Padilha em Tropa de Elite (2007), aventura-se na primeira empreitada na cadeira da direção de um longa-metragem com Bingo – O Rei das Manhãs. A livre adaptação não-oficial da história do palhaço Bozo ganha corpo e se destaca pela irreverência e criatividade narrativa de seu realizador, que conduz com uma mão firme e segura a trajetória do ator Augusto Mendes para se tornar o palhaço Bingo.

Desde sua introdução, polvilhando sua montagem com comerciais antigos, Rezende remonta a atmosfera oitentista de maneira bastante competente ao trazer imagens que se contrastam diretamente com a lógica clean e comedida do que entendemos nos dias de hoje como televisão. A nostalgia é provocada pelo cuidado de uma direção de arte bastante atenta para as cores e formatos dos cenários dos programas, sendo perspicaz ao seduzir um espectador de meia-idade que provavelmente cresceu assistindo novelas e programas de auditório.

E assim, a década da “falta de limites” é transposta em tela através de um ritmo acelerado, embalado por trilhas pop marcantes, seguindo um esquema de narrativa bastante similar do que é visto na obra de Martin Scorcese em seus longas Os Bons Companheiros (1990) e Lobo de Wall Street (2013). O arco de Augusto Mendes é um exemplo clássico da lógica de “ascensão, apogeu e queda”, onde em seu primeiro momento é explorada uma humanização do personagem, através de suas fraquezas e dificuldades, possibilitando uma grata satisfação do público quando o vemos alcançar seus objetivos. Com essa estrutura, fica bastante confortável para que um roteirista crie peripécias e situações que agreguem ainda mais valor ao material final; porém o que vemos em Bingo é um demasiado contentamento que impede o roteiro de ir além do convencional.

Seja na inserção de alguns diálogos expositivos ou no excesso de frases de efeito inseridas em momentos inadequados, essas pequenas fragilidades em seu texto são facilmente ofuscadas pelo carisma de seu personagem título. Ponto para Vladimir Brichta, que entrega uma das interpretações mais marcantes de sua carreira ao demonstrar cuidado e precisão nas escolhas de trejeitos do seu Bingo. A dificuldade de interpretar um ator no ato da construção de outro personagem é superada com louvor por Brichta, que não apenas consegue separar suas ações como Augusto Mendes e como Bingo, mas utiliza ferramentas interpretativas bastante sofisticadas ao saber “falhar” nos momentos em que Augusto, dentro do programa, deixa transparecer o homem atrás do nariz vermelho.

Uma luz dourada e quente preenche os palcos do programa do Bingo e transborda para diversos momentos da vida pessoal de Augusto, aliada a uma suavização no foco eficiente na transposição de uma glamourização da vida artística. A fotografia de Lula Carvalho (RoboCop, 2014) se despe de qualquer redundância e investe no contraste dessa idealização com a dureza de uma luz fria e incolor para pontuar os momentos em que a realidade engole o calor fantasioso da ribalta. Os espelhos dos camarins e os reflexos das ruas ilustra um personagem cada vez mais incapaz de se reconhecer, seja como humano ou como artista, pelas distorções e sujeiras em suas superfícies translúcidas, sempre ofuscadas pelo próprio ego de Augusto Mendes.

Divertido por trabalhar com destreza o alto contraste entre o humor ácido e adulto do politicamente incorreto de uma televisão altamente sexualizada da década de 1980, e a constatação de estarmos de fato lidando com um programa infantil, Bingo – O Rei das Manhãs funciona muito além do que uma representação histórica. Trazendo planos filmicamente poderosos e uma decupagem instigante e criativa, nos dá a impressão de que os anos na sala de montagem fizeram de Daniel Rezende não apenas um grande aglomerador de fotogramas, mas um criador de imagens bastante promissor.

Klaus Hastenreiter
Escrito por Klaus Hastenreiter

CEO BITCH na empresa Olho de Vidro Produções, ator, cineasta, crítico e fofo.

1 Respostas de comentários

  1. Avatar

    Bela crítica! Deveria, apenas, dar mais ênfase à trilha sonora espetacular, com músicas da década de 80 que fogem ao trivial, sendo escolhidas a dedo.

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Bingo: o Rei das Manhãs


PAÍS: BRA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO:
ESTREIA: 12 de dezembro de 2017
DIREÇÃO: Daniel Rezende
ELENCO: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Tainá Müller e Emanuelle Araújo
SINOPSE: Na trama, Augusto (Vladimir Brichta), um artista que sempre sonhou com seu lugar sob os holofotes, finalmente tem sua grande chance ao se tornar Bingo, um palhaço apresentador de um programa infantil de televisão que é sucesso absoluto. Uma cláusula no contrato não permite revelar quem é o homem por trás da máscara, produzindo em Augusto a frustração de ser o homem anônimo mais famoso do Brasil. Uma surreal história sobre a busca de um homem pelo reconhecimento de sua arte.