Axé: Canto do Povo de um Lugar

Axé: Canto do Povo de um Lugar

Semana passada estreou na Globo a novela das 21h (há controvérsias) Segundo Sol, com uma trama que se passa na Bahia e cujo protagonista é um cantor de Axé Music, termo inicialmente criado de forma pejorativa pelo jornalista Hagamenon Brito para definir um dos maiores expoentes musicais do estado até então. E foi um momento muito oportuno para que, na semana anterior, a emissora transmitisse o documentário Axé: Canto do Povo de um Lugar, onde perscruta a origem deu camaleônico “gênero”.

O documentário engasga ao tentar levantar críticas

 Impressiona a quantidade de pessoas que viveram – ou vivem – do estilo que música que Chico Kertész consegue angariar: produtores, artistas, compositores, radialistas, empresários do carnaval; enfim, vários membros dessa indústria que teve seu início em meados de 80 com Luiz Caldas e que hoje, mesmo com grandes estrelas sob sua tutela, entra num período de franca decadência conjuntamente com o Carnaval baiano – bom, o segundo atualmente passa por transformações significativas. Aliado aos contatos, o sem-número de imagens de arquivo; algumas já vistas em outras produções do gênero, mas notavelmente impressionantes.

Além do acervo de imagens da época, as músicas: pode gostar de rock, samba, o que for. É inacreditável o poder que a Axé Music dominou, transformando algumas das músicas em hinos; e o documentário utiliza sem dó todo seu arsenal musical. Se existem clássicos, todos aqui estão pontuados.

Chico compreende que o ritmo é indissociável ao carnaval, logo o diretor é preciso ao introduzir seu documentário falando brevemente sobre a momesca festa, tal qual um plano geral, para o espectador se localizar. Após a introdução, as entrevistas conduzem a deliciosa narrativa de forma didática e natural. É como seguir os Filhos de Gandhy na avenida: o trajeto é previsível, mas mesmo assim, belo.

Para quem não é baiano, além da fácil estruturação de uma história que traz muitos protagonistas, há a preocupação de sempre pontuar os entrevistados, repetindo os nomes e funções nos letterings sempre que possível. Diversas vezes o diretor utiliza considerações de Caetano e Gil para legitimizar falas de entes que são desconhecidos para o Brasil, uma vez que o Axé por muito se bastou apenas da Bahia para florescer.

O documentário engasga ao tentar levantar críticas sobre a “usura” do empresariado que combaliu o gênero, desgastando-o e, por conseguinte o veículo que o carregava, o carnaval. A produção apenas pontua para não manter só o mar de maravilhas, evitando um papo mais incisivo, portanto crítico do modo que a indústria foi conduzida. E assim com o jabá – procedimento em que a gravadora pagava à rádio para tocar a música de determinado artista; a apropriação cultural (perceba que a totalidade dos donos de negócio por trás do evento eram/são brancos), entre outros, só restando o clima de convescote e curiosidades sobre os tempos áureos de outrora.

O momento mais pungente de crítica é quando Ivete Sangalo confronta a ideia alimentada por outros produtores e cantores – como Carlinhos Brown e Netinho – sobre a “umbigocracia” do movimento, onde a artista pesa o tom, discordando; mas aí já estamos no fim do terceiro ato, e o problema dito acima novamente se concretiza: pontua, mas não aprofunda, preferindo terminar numa linda rima em que o início e a renovação se encontram, concretizados em Luiz Caldas (o pai da Axé Music) e Saulo (franca inspiração para o protagonista da novela citada lá acima).

Agradável, divertido e completo, Axé: Canto do Povo de um Lugar legitima o movimento musical em uma produção que organiza o fervilhante movimento musical para olhares não tão versados. E mesmo para esses é um retorno extremamente agradável e rico. Com o conhecimento de mais uma obra (o documentário Sou Carnaval – de São Salvador previsto para esse ano), imagino que futuramente teremos as duas visões: a que acabo de escrever, que vem de cima do trio; e a futura de baixo, tornado a folia muito mais completa.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

Ainda não há comentários.

Ninguém ainda deixou um comentário para esta publicação!

Deixe uma resposta

Axé: Canto Do Povo De Um Lugar


PAÍS: BRA
CLASSIFICAÇÃO: 12 anos
DURAÇÃO: 128
ESTREIA: 19 de janeiro de 2019
DIREÇÃO: Chico Kertész
ELENCO:
SINOPSE: Originário da Bahia e considerado hoje um dos movimentos musicais mais globalizados do mundo, o Axé é um ritmo musical que carrega em sua essência boa parte de todo o sincretismo musical e cultural baiano. O documentário reúne entrevistas e imagens de arquivo com objetivo de traçar um ponto inicial do nascimento do gênero.