Auto de Resistência

Auto de Resistência

Desde 4 de janeiro de 2016, de acordo com o Diário Oficial da União, o termo Auto de Resistência foi abolido dos boletins policiais. O fim do termo fazia parte de uma luta do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, pertencente à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República afim de que o fato de uma pessoa resistir a uma abordagem policial não seja motivo para que o ente do estado finde a vida do que resiste.

Embora semanticamente importante, ainda é perfumaria perto do que acontece nas comunidades brasileira mais pobres, e aqui focada na realidade do Rio de Janeiro, onde jovens negros e periféricos são a quase totalidade dos mortos. Não à toa o vídeo feito por Spartakus Santiago, AD Junior e Edu Carvalho para conscientizar negros a portar-se numa abordagem soa muito mais como um caso de bom-senso em meio ao absurdo já vivido pelos cidadãos do estado.

O documentário conduzido pelo já consagrado diretor de fotografia Lula Carvalho (Tropa de Elite 1 e 2, Robocop) em parceria com a pesquisadora Natasha Neri expõe de modo aterrador a vida de mães que tiveram seus filhos mortos de forma irresponsável pela polícia do Rio, em face a morosidade dos processos e em muitas vezes a irresponsabilidade dos membros da corporação que fraudam a cena do crime, tornando o “auto” legítimo. Os dois diretores tiveram acesso a protestos em frente a Instituições do estado do Rio e a várias audiências onde a polícia é confrontada sobre seu modus operandi e os diretores colhem momentos surreais dos depoimentos, onde oficiais reafirmam seu despreparo – ou cinismo – ao confessar que através da mão de um cadáver disparou uma arma, já que a bala da pistola estava presa, e o “procedimento” evitaria acidentes.

O doc é estruturado em camadas até chegarmos no núcleo e realizarmos o processo de volta. Começamos com o Caso Jonatha, que tomou um tiro nas costas de um oficial e terminamos com a “conclusão” do caso, não sem antes acompanhamos vários outros – além das discussões na CPI dos Autos de Resistência, onde caras figuras já conhecidas no Brasil estão presentes, como os deputados Wanderson Nogueira, Marcelo Freixo e Flávio Bolsonaro.

De certa forma, não há muita novidade do que é exposto, mas sempre é relevante o choque de realidade em nós, muitas vezes entorpecidos pela massificação dos fatos. A presença da ainda viva Marielle Franco, vereadora que foi abatida junto com o seu motorista Anderson Pedro Gomes a três meses atrás – e sem solução para o caso – é um dos momentos que engasga, mesmo que ela passe de relance. Em conjunto, vemos cenas flagrantes de policiais forjando os locais do crime por telas de celulares e o notório racismo não só presente de forma intrínseca no julgamento policial, mas como componente de defesa, onde certo momento no Caso Allan e Chauan, a magistrada vai a júri para argumentar lícita a facilidade que policiais tiveram em confundir garotos de traficantes “porque traficante é tudo magrinho, esquálido”.

Apesar de extremamente relevante, o filme vai cansando o espectador já que mesmo com os temas hiper relevantes para o Rio de hoje e que deixam o espectador atônito, eles soam repetidos por tornarem-se extensos.

Auto de Resistência é o grito de uma parte ampla e desfavorecida da sociedade que não permite mais que seus iguais sejam chacinados; mesmo com um final desolador, é mais uma ferramenta que demonstra que o Rio já tinha plantada a tempos a semente que culminou na morte de Marielle e de tantos outros que buscam justiça pelas famílias acometidas pelo luto.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Auto de Resistência


PAÍS: BRA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 104
ESTREIA: 24 de setembro de 2018
DIREÇÃO: Lula Carvalho, Natasha Neri
ELENCO:
SINOPSE: Em 2017, 1124 pessoas foram assassinadas por policiais no Rio de Janeiro Diante destes dados,
documentário revela histórias de algumas destas pessoas e de seus familiares. Segundo a polícia,
os homicídios foram em função de auto de resistência, que é quando o policial mata para se defender.