Atômica

Atômica

Nos últimos dias, Kim Jong-un, o homem que dita as regras na Coreia do Norte, enviou mais um recado para os EUA e aliados por meio de um míssel que atravessou o Japão, deixando todos de cabelo em pé. Esse incidente per se mostra que a história tem uma ciclicidade absurda e nos faz voltar aos tempos de Guerra Fria, onde os mesmos EUA esboçavam preocupação com as armas da outrora União Soviética. E o maior reflexo dessa contenda materializava-se no muro de Berlin e em uma frase dita em Atômica que vem muito a calhar e é mais ou menos assim: “não nos armamos porque nos  tememos, nos tememos porque nos armamos”.

Sob a batuta de David Leitch (John Wick), a adaptação da graphic novel de Antony Johnston e Sam Hart, “A Cidade mais Fria”,  segue o mesmo trabalho executado pelo diretor em parceria com Keanu Reeves: aqui Charlize Theron (Mad Max: Estrada da Fúria) é Lorraine Broughton, uma agente britânica do MI6 que está na Berlin pré-queda do Muro para investigar a morte de um agente, além da missão de encontrar uma lista que expõe vários outros; e essa procura desemboca em uma sucessão de eventos que não citarei para não estragar a experiência.

A narrativa ocupa cerca de 70% da história com um flashback dos atos de Lorraine durante sua estadia de dez dias em Berlin; fatos colhidos durante um interrogatório por diretores do MI6 (Tobey Jones, de Alice através do Espelho) e CIA (John Goodman, de Rua Cloverfield, 10). E para não criar um filme denso e moroso, o percurso da agente, aliado a uma montagem ágil, ótimas cenas de luta e trilha oitentista torna-se muito mais palatável.

“Torções são os golpes mais sofisticados em meio à murros na garganta, chutes no saco e molhes de chave usados como soco inglês”

Mesmo com o aviso inicial de que aquela história não é sobre a queda do Muro da vergonha – a trama se passa em 1989 – o roteiro acompanha os eventos reais em muitos momentos através de TVs ligadas ao fundo anunciando a problemática política, com notícias de Reagan e das negociações. O ar de desconfiança é transmitido também pela paleta de cores da iluminação utilizada por todo o filme onde em boa parte da projeção os personagens são divididos em duas ou três cores (que por si já remete à divisão da capital alemã entre URSS, EUA, França e Inglaterra). A separação também implica nos órgãos de espionagem presentes na trama: a KGB, obviamente, como vilã e as demais ambíguas, como a STASI (a agência alemã), o que aumenta o clima de paranóia à medida que cada personagem é inserido na trama, como o contato Percival (James McAvoy apresentando mais uma vez sua versatilidade como visto em Fragmentado), Delphine Lasalle (Sofia Boutella, de A Múmia) e Merkel (Bill Skarsgård, da série Hemlock Grove). É inegável o talento de Charlize no papel da irrascível agente, que atrai tanto nas tiradas quanto nos olhares; além de demonstrar mais uma vez que tem completo domínio físico ao performar as lutas de modo natural.

As cenas de luta fazem juz ao diretor de John Wick: cruas, onde torções são os golpes mais sofisticados em meio à murros na garganta, chutes no saco e molhes de chave usados como soco inglês. Descendente direto do thriller de ação indonésio The Raid (2011), a vulnerabilidade dos combatentes e as consequências dos danos trazem um ar de realismo à porradaria, no qual Leitch investe longos planos – apenas uma das cenas de perseguição de carros incomoda pelo corte afim de mostrar uma colisão em detalhes. David acrescenta também uma direção que, embora o mise-en-scène seja caótico em meio à briga, faz com que o espectador saiba exatamente onde o oponente está, mesmo que ele saia do plano, aumentando a tensão.

Um dos pontos mais empolgantes é o que estranhamente passa do ponto: a trilha. Percebe-se que ela foi cuidadosamente escolhida, com um pé no eletrônico (até rememorando o grupo alemão Kraftwerk, que estranhamente não está na trilha), mas ela pulula como muleta, mesmo que escondida como elemento diegético (quando o som que emoldura a cena vem de algum meio como rádio, por exemplo). Mas é inegável a empolgação ao ouvir hits como I Ran, Major Tom, London is Calling, Cat People, 99 Luftballons entre outros. Há até espaço para cena inspirada em John Woo (A Outra Face) com um quebra-pau e música Father Figure, de George Michael em contraste.

Engrossando a fileira de mulheres de ação no cinema, Atômica é um filme divertido que vale muito a pipoca. Espero que viabilizem de alguma forma o retorno de Lorraine para uma sequência.

PS: se gostou desse período da espionagem mundial e em Berlin, recomendo fortemente a série alemã Deutschland 83.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Atômica


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 115
ESTREIA: 19 de janeiro de 2019
DIREÇÃO: David Leitch
ELENCO: Sofia Boutella , Charlize Theron , James McAvoy , John Goodman
SINOPSE: Uma agente disfarçada do MI6 é enviada para Berlim durante a Guerra Fria para investigar a morte de um agente e recuperar uma lista de espiões duplos.