As Viúvas

As Viúvas

Steve McQueen não sai imune do seu quarto longa. Transitando para longe dos pesados dramas existenciais de seus três brilhantes filmes anteriores, muito se perde em deixar-se levar pelo cinema “comercial”. Mesmo apresentando diversos questionamentos válidos e problemáticas contudentes para tempos conturbados, os novos ganhos do cinema mais palatável do realizador revelam-se na maior parte do tempo excitações escapistas.

O filme tem início com um assalto frustrado, resultando na morte de Harry Rawlins (Liam Neeson) e sua gangue numa explosão. Com o dinheiro roubado destruído, a viúva de Harry, Veronica (Viola Davis), passa a ser cobrada para que a quantia seja devolvida. Sem saída, ela encontra um caderno de anotações de Harry que prevê em detalhes aquele que seria seu próximo golpe. Veronica então decide realizar o roubo, tendo a ajuda das demais viúvas dos mortos no assalto frustrado.

Se a premissa soa esquemática, não é à toa. Baseado numa série de TV britânica de pouca relevância, estamos longe dos dramas existenciais e conflitos históricos vistos previamente nos filmes de McQueen. A quantidade de personagens que figuram e dão à pesada narrativa seu recheio é vasta, e o realizador, geralmente acostumado a roteiros enxutos, aqui vê-se pela primeira vez tendo de equilibrar uma sorte de tempos para desenvolver diversos personagens, conflitos vários que ora parecem perfeitamente adequados ao longa e ora aparentam ser questionamentos apresentados sem muita razão de existir, apenas para causar impacto no automático, a exemplo da morte de um jovem e como isso, supostamente, tem relevância tanto como crítica e, simultaneamente, resolução de trama.

E aí está o grande calcanhar de Aquiles de As Viúvas: os únicos grandes problemas do filme concentram-se no roteiro, escrito pelo próprio McQueen e a contemporânea rainha do mistério Gillian Flynn (Garota Exemplar), num filme que depende, e muito, do mesmo para convencer a todo tempo que suas viradas de trama não são mero capricho e também para personagens demonstrarem ser mais que arquétipos para funcionar.

Tentando fazer uma colagem de racismo estrutural, políticos oportunistas, violência urbana entranhada em quase todas as esferas sociais de formas diversas e ainda por cima utilizar todos esses elementos como manifesto de afirmação para um quarteto de mulheres que mal tem tempo de respirar em subtramas atrapalhadas e mal desenvolvidas, temos aqui um exemplo de obra incrivelmente ambiciosa, mas que tropeça na própria grandeza, evidenciando uma escrita problemática e apoiada numa reviravolta no meio do filme que poderia simplesmente encerrá-lo, além de motivações simplórias. Apesar de todos esses problemas, há acertos também, como a escolha de Chicago como ambientação, e a forma como o mecanismo criminoso da cidade surge inerentemente num filme que se beneficia da dualidade entre bem e mal sem maniqueísmos, chegando a lembrar em muitos momentos a brilhante série The Wire.

Felizmente, As Viúvas conta com um elenco brilhante e que salva seus personagens artificiais do total esquecimento. Começando por Viola Davis, temos uma protagonista não apenas inteligente, mas que nunca parece 100% certa do que está fazendo, mesmo tentando aparentar uma confiança constante ainda que sob ameaça ou quando questionada. É um equilíbrio frágil que a veterana atriz tira de letra, e sua cena final evidencia ainda mais o peso de sua atuação. Michelle Rodriguez e Cynthia Erivo fazem o possível no que é basicamente o mesmo papel de mãe solteira, e chega a ser irritante que as duas não tenham mais tempo de tela para que possamos nos importar mais com suas personagens. Uniformemente, Colin Farrell, Robert Duvall e Liam Neeson não impressionam, mas também não fazem feio, convencendo em suas cenas e sempre transitando entre a canalhice e a ameaça física.

O destaque fica mesmo para Elizabeth Debicki, quase por acidente a personagem mais bem desenvolvida da trama e o primeiro papel de destaque da atriz, desde a sua estreia no cinema sub-aproveitada como coadjuvante inútil ou vilã genérica. Sua Alice destaca-se ao mostrar-se a mais frágil do grupo, tendo um arco completo de vítima a vencedora e sabendo demonstrar versatilidade, seja como atriz dramática ou produzindo um dos poucos momentos genuinamente irreverentes do longa.

O brilhantismo também se estende para o pouco de ação que o longa presenta, filmado de forma brilhantemente crua, nunca tratando suas cenas mais movimentadas como carne de vaca. A competente e sóbria fotografia do habitual parceiro do diretor, Sean Bobbitt, é ajudada por uma edição impiedosamente ágil sem cair no corta-corta barato. Chega a ser uma pena que estejamos testemunhando um filme tão tecnicamente redondo, mas claramente tentando satisfazer as vontades do estúdio e que beneficiaria-se de uns 30 ou 40 minutos extras para casar todos os seus elementos e personagens que vão sendo empilhados numa velocidade propulsiva.

As Viúvas é bipolar na sua intenção, claramente de uma trama pulp, mas injetada com muito conteúdo para fazer valer toda vontade de questionar aspectos problemáticos de uma sociedade doente. Explora suas heroínas no automático, em contraponto a seus realizadores que utilizam quase todos os outros elementos fílmicos como a mais alta arte e de uma profundidade sem igual, disfarçando sua verdadeira natureza num momento em que vangloriar o poder feminino é como pescar com bomba num aquário. Diverte enquanto dura, mas entra para o cinema como o primeiro filme esquecível de um intrigante diretor.

Felipe Franca
Escrito por Felipe Franca

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As Viúvas


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO: 14 anos
DURAÇÃO: 129
ESTREIA: 19 de janeiro de 2019
DIREÇÃO: Steve McQueen
ELENCO: Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Viola Davis, Cynthia Erivo, Liam Neeson, Colin Farrell, Robert Duvall, Daniel Kaluuya e Brian Tyree Henry.
SINOPSE: É a história de quatro mulheres sem nada em comum, exceto uma dívida deixada pelas atividades criminosas de seus maridos mortos. Situada na contemporânea Chicago, em meio a um tumulto, as tensões aumentam quando Veronica, Alice, Linda e Belle assumem o destino em suas próprias mãos e conspiram para forjar um futuro em seus próprios termos.