Aos Teus Olhos

Aos Teus Olhos

A vida muda quando se é pai. Mesmo.

E nem entrarei no mérito da mãe pela obviedade oriunda da da biologia até o fomento social do papel materno.

Uma vez pai, você se esforça (deveria ser assim) para tentar passar um ideal para sua criança. Eu tenho uma menina, o que torna mais complicado ensiná-la como enfrentar um mundo machista e preservá-la da mesma sociedade, entrando em conflitos que fazem você, minuto após minuto, ruminar suas opiniões. E como já ouvi em certo podcast sobre a maternidade, mas vale para o pai também: no fim do dia não há gabarito para saber se houve certo ou errado.

Desde o primeiro momento, a diretora instala a dúvida com a câmera embaixo d’água entre as pernas das crianças, como se um predador estivesse à espreita. Logo depois, apresenta um professor carinhoso que qualquer pai gostaria, para depois mostrá-lo com infelizes comentários com o colega de trabalho. E assim, por todo o filme – até o “desfecho” que não colocarei aqui – somos bombardeados por uma miríade de vestígios, para o sim e para o não.

A grande discussão que Jabor levanta na sua obra baseada na peça teatral espanhola “O Princípio de Arquimedes” é: o sim é “sim”? Além disso, amplia a conversa para nossa realidade aparelhada com seus notebooks, tablets e smartphones, engatilhados para o menor vestígio atirarem suposições que podem destruir a vida de várias pessoas, onde é indiscutível lembrar do caso mais emblemático: o caso da Escola Base em São Paulo. E acompanhamos a história ao lado de Rubens vivido magistralmente por Daniel de Oliveira, que consegue através do olhar e de risos nervosos imprimir dubiedade; tudo isso acompanhado de um azul melancólico e uma palidez que agonia por eximir o filme de quaisquer emoções claramente específicas, senão a tristeza.

Pelo olhar de Rubens conseguimos analisar outras questões como o linchamento virtual e o preconceito ainda aliando perversões à homossexualidade; esses pontos fustigam não só o espectador, mas vários personagens dentro da trama, refletindo a hipocrisia que carregamos. Um dos maiores espelhos é visto na proprietária Ana (Malu Galli), que demonstra o conflito entre a visão conservadora e a libertária – “na minha época nadávamos nus com os alunos”  que rui em seus valores a ponto de tecer para Rubens a mesma pergunta sobre sua opção sexual que o pai machista Davi (Marco Ricca) faz antes de abordar o caso do assédio.

A discrição da trilha e o modo com que a câmera é utilizada acrescentam dubiedade e incômodo: a trilha é econômica, sendo uma das únicas formas de demonstrar exacerbação nos personagens ou atitudes; como, por exemplo, no retorno de Rubens para casa com o carro vandalizado. A trilha percussiva soa incômoda como uma máquina de lavar desnivelada.

Já a direção – e acrescento a fotografia – atuam com uma espécie de sadismo, como na cena da queixa que introduz o segundo ato, em que o plano propositadamente “corta” a cabeça de Davi de modo a “poupar-lhe” da vergonha de tokenizar o seu preconceito com a já conhecida frase “eu até tenho amigos gays”. Amplia-se com uma câmera na mão que foge do clichê de tremer compulsivamente emulando tensão, mas que atormenta recortando os personagens de tempos em tempos durante seu acompanhamento pelos corredores sombrios da academia. Mas há espaço para um trabalho menos naturalista, como no terceiro ato, na conversa do vestiário entre Ana e Rubens, onde ironicamente a câmera é posicionada onde uma câmera de segurança ficaria. Logo no lugar onde se houvesse uma, toda a trama seria resolvida.

Com um elenco brilhante em sua segunda ficção, Carolina Jabor consegue através de seu delicado sadismo fazer com que o espectador não desgrude da poltrona. E espera-se que a culpa de Rubens – ou não – não paire como a única discussão oriunda do filme.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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PAÍS: BRA
CLASSIFICAÇÃO: 16 anos
DURAÇÃO: 87
ESTREIA: 19 de janeiro de 2019
DIREÇÃO: Carolina Jabor
ELENCO: Daniel de Oliveira, Luisa Arraes, Gustavo Falcão
SINOPSE: Os pais de um menino acusam um professor de natação de abusar de um de seus alunos.