Aniquilação

Aniquilação

Hoje minha sogra acabou de sair de uma cirurgia para retirada de um câncer; para ser mais exato, um carcinoma lobular invasivo. Por mais estranho que seja, não nego que é fascinante o modo de crescimento acelerado de algumas células, digamos, “rebeldes”, que devido a um ocaso em sua programação, fogem à regra, causando estrago em todo o ecossistema. É um momento em que a vida transforma beleza e destruição em sinônimos.

Essa é linha principal de Aniquilação, filme da Netflix dirigido e roteirizado por Alex Garland (Ex-Machina), baseado na obra de Jeff VanderMeer, onde uma ex-militar e bióloga, Lena (Natalie Portman), entra com uma equipe expedicionária no Brilho (cuja fonte é um, advinha, farol), uma zona desconhecida coberta por uma energia que aos poucos se alastra pelo estado. Lena embarca nessa expedição afim de encontrar uma resposta que salve o seu marido Kane (Oscar Isaac, de Star Wars: Os Últimos Jedi), o único a voltar com vida do local após um ano.

Como assim o pessoal entra em um ambiente desconhecido sem máscaras de oxigênio ou roupas de segurança?

Pegando emprestado alguns elementos de obras como Alien (1979), o filme tem momentos inventivos, uma atenção para o elenco formado por minorias e apresenta um cuidado com a composição das suas cenas: em quase todo o instante, a personagem de Portman encontra-se “comprimida” em um dos terços da tela, seja pelas estruturas em volta, que dividem a cena, ou por demais atores que criam uma barreira. A narrativa usa uma estrutura elíptica, tal qual A Chegada (2016), revezando momentos do grupo em direção ao ponto zero com a entrevista de Lena pós-Brilho, e um vislumbre de sua vida antes de Kane, também militar, receber o chamado.

A tensão também é proporcionada de forma bastante calculada, com movimentos de câmera sutis e evitando o cliché dos jump scares – quando a trilha aumenta o volume com o intuito de provocar susto. Aliás, o filme se vale muito de silêncio, o que torna os momentos de espanto mais imprevisíveis e causa um estranhamento benéfico para a atmosfera da trama. Quando a trilha entra, mantêm a estranheza, hora com tons bucólicos com instrumentos de cordas ou com desconfortáveis sons de sintetizadores que parecem oriundos de uma apresentação de Björk.

Um dos problemas é o didatismo utilizado que casa com a proposta de um projeto para a TV, mas não foi a concepção inicial ao saber que a produção foi veiculada nos cinemas de alguns locais. A exposição está a todo momento nos diálogos sobre na evolução de um câncer, nas mutações desenvolvidas e em cenas microscópicas que ilustram e também servem como vinhetas. O diretor também conduz o espectador pela mão ao definir a introdução, desenvolvimento e finalização em três grandes capítulos (Área X, O Brilho e O Farol). Certas explicações para um público leigo são compreensíveis, como o das células HeLa, chamadas de imortais por se dividirem num número ilimitado de vezes, e cujo nome é uma corruptela de Henrietta Lacks, a a doadora involuntária das células cancerosas – Lena aparece com o livro de Lacks certo momento .

Ademais, assim como Alien Covenant (ou até menos que este), a suspensão da descrença em atos da bióloga e equipe tem que ser elevados em graus bem altos: como assim o pessoal entra em um ambiente desconhecido sem máscaras de oxigênio ou roupas de segurança? E como ela recolhe ou toca em materiais de amostra sem luvas?

Com um final que tem uma certa pretensão de explodir cabeças – e não o faz – o segundo trabalho de Alex Garland como diretor pode ser um dos melhores filmes “originais” da Netflix, porém, ainda é mais um no universo de bons filmes de ficção científica.

PS: ah, minha sogra já tá de boas.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Aniquilação


PAÍS: EUA | GBR
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 115
ESTREIA: 25 de Abril de 2018
DIREÇÃO: Alex Garland
ELENCO: Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Tessa Thompson
SINOPSE: Uma bióloga se inscreve para uma expedição perigosa e secreta onde as leis da natureza não se aplicam.