Alien Covenant

Alien Covenant


[contém spoilers menores]
Em 1978, um diretor inglês de nome Ridley Scott (Exodô: Deuses e Reis) inaugurou o gênero de terror espacial apresentando uma criatura de crânio fálico extraída dos pesadelos doentios do designer sueco H.R. Giger e com um roteiro escrito por Dan O’Bannon que metaforizava o estupro – suas palavras. Também daí surgiu uma das mulheres mais fortes da cultura pop: a Tenente Ellen Ripley, eternizada pela atriz Sigourney Weaver e que a cada nova produção mais personagens femininas interessantes aparecem.

Tempos se passaram e em 2017, Ridley retorna à franquia que lhe deu visibilidade com Alien Covenant, apresentando uma nova tripulação que tem um fatídico encontro com o xenomorfo.

Alien Covenant chegou com a responsabilidade de ligar o aparentemente “à deriva” Prometheus com a mitologia Alien; e aí começam os problemas iniciais: a fragilidade da tal “Mitologia” e as tentativas de estofo desta que soam como remendos desinteressantes, com exceção de Aliens (1986), onde o ecosistema xenomorfo foi expandido. E para manter essa suposta aura mitológica grandiosa, o filme utilizou-se do You Tube para apresentar dois prólogos: um onde soubemos do destino da Dra. Elisabeth Shaw (Noomi Rapacce) e do sintético David (Michael Fassbender de A Luz Entre Oceanos, excelente), as pontas de esperança de Prometheus; e outro apresentando a equipe da nave de colonização Covernant antes de entrarem no hipersono: certo momento gera até uma brincadeira com a clássica cena de Kane no jantar da Nostromo – e podemos ver que James Franco realmente participou do filme. Isso sem contar as mensagens dos membros, igualmente transmitidos

A necessidade do roteiro de supor que é dirigido para fãs é outro erro: a produção tem ciência de que não dá para contar tudo nos 122 minutos da projeção; só que por outro lado é muito difícil pedir para que o espectador comum faça o “dever de casa” de conferir os videos previamente lançados. O resultado é que a falta de tempo para aprofundar a relação dos personagens atrapalha na criação de empatia, transformando-os em buchas de canhão. E embora o terceiro ato leve a respaldar esse desinteresse, não é proposital já que a tripulação é composta de casais e não usufrui dessa particularidade. Nesse modelo trôpego que a personagem Daniels (Katherine Waterston, de Animais Fantásticos e Onde Habitam) vai alçando seu papel como protagonista, seguindo a mesma estrutura hierárquica (e de baixas) que destacou Ripley.

Ademais, acrescentando à pilha dos erros de roteiro são as argumentações que não atendem uma lógica científica como: você está em um planeta desconhecido com atmosfera similar à Terra, mas porque sua equipe não usa capacete? E logo após, é válido as pessoas terem medo de contaminação?

O terreno em que Covenant pisa é muito mais sólido que os demais filmes da série, utilizando referências do filme de 1978 como a trilha (muito similar), os créditos de abertura (com a mesma estética); até pontuações mais elaboradas em cenas como no primeiro ato, onde Walter (também Fassbender) também apaga chamas da mesa de controle tal qual a primeira produção; a visualização das informações do pouso da nave alienígena do filme anterior que remetem ao capacete iluminado nos primeiros minutos de Alien; e em vislumbres de mortes vistas no primeiro (a evisceração de Lambert e seus gritos ecoando pelos corredores).

E a cada ligação com o filme progenitor, o fã vai sentir aquele calorzinho no peito; afinal todo mundo sabe o que acontece quando alguém mete o rosto em um ovo alien recém-aberto, não? Porém, a escolha de referências de um filme já chancelado imputa um medo de correr riscos, sugerido até pelo retorno ao nome “Alien” no título. Na “descoberta” do terceiro ato, as trilhas de pão deixadas para o público são tão grandes que fica até sem graça a surpresa.

Covenant pega na mão de Prometheus e solenemente abandona as metáforas de estupro, maternidade e afins oriundas dos antecessores, e continua a tecer – agora de modo bem menos arrogante – a ideia de criador e criatura. Tal argumento é evidentemente claro nos primeiros minutos da projeção, no diálogo entre Weiland (Guy Pearce, de The Rover, em uma breve e marcante atuação) com David (cujo nome é inspirado na escultura de Michelangelo). Se no filme anterior, David tinha a condição de criatura, agora ele assume a posição de criador; e sua busca pelo “État de l’art” da sua cria consequentemente o transforma em antagonista. E esse argumento torna-se maior que a história de sobrevivência contada ali, transformando os membros de tripulação em meros peões no meio de um evento bem maior.

Na parte técnica, o design de produção toma cuidado na padronização dos elementos já apresentados na franquia, mas consegue trabalhar na diferenciação: vão-se as paredes brancas e entram as metalizadas e mesmo em ambientes abertos, o ar pesado e soturno soa claustrofóbico. Certos momentos tem um quê do segundo filme dirigido por James Cameron, principalmente no setor de terraformação da nave, onde encontram-se as máquinas pesadas. O design dos xenomorfos não tem grandes alterações a não ser a falta do chessbuster original, mutação intermediária do alien que, como o nome diz, tem o mau hábito de arrebentar o tórax dos seus hospedeiros.

No entanto, alguns efeitos pecam por aparentarem absurdos, principalmente nas duas primeiras mortes no desconhecido planeta. A sorte é que Ridley é um exímio diretor e imbui tensão e suspense na cena, minimizando o problema e auxiliado pela fotografia de Dariusz Wolski (de Perdido em Marte), que segue o trabalho bem executado na produção anterior. A fascinação com os efeitos digitais pecam da mesma forma com invencionices como uma visão subjetiva do xenomorfo que mais atrapalha que ajuda.

Denso e menos irregular, Covenant corrige problemas do seu antecessor e cria novos, mas a falta de ousadia fazem com que o filme torne-se apenas mais um competente filme de terror espacial.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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Alien Covenant


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 122
ESTREIA: 12 de dezembro de 2017
DIREÇÃO: Ridley Scott
ELENCO: Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup, Danny McBride, Demián Bichir, Carmen Ejogo, Amy Seimetz, Jussie Smollet, Callie Hernandez, Nathaniel Dean, Alexander England, Benjamin Rigby
SINOPSE: Ridley Scott retorna ao universo que criou com ALIEN: COVENANT, um novo capítulo em sua inovadora franquia ALIEN. A tripulação do navio-colônia Covenant, ligada a um remoto planeta no lado distante da galáxia, descobre o que eles acham que é um paraíso inexplorado, mas na verdade é um mundo escuro e perigoso. Quando descobrem uma ameaça além de sua imaginação, devem tentar uma fuga angustiante.