A Noite do Jogo

A Noite do Jogo

Nos últimos anos, a cultura dos jogos de tabuleiro cresceu inimaginavelmente no Brasil; claro, de certa forma ainda podemos colocar como um nicho, mas é indiscutível a presença do mesmo raio gourmetizador que faz quadrinhos se “diferenciar” de graphic novel: uma envergonhada fuga do referencial infantil que tanto as HQs quanto os agora famosos board games trazem. E essa alegoria sobre amadurecimento é utilizada em A Noite de Jogo, comédia protagonizada por Jason Bateman (Ozark) e Rachel McAdams (Doutor Estranho, Spotlight), casal que reflete uma visão contemporânea das noites de jogatina e se mete em muitas confusões.

Esse jogo pode ir sem medo porque não é nenhum Eurogame.

A comédia apresenta um comentário importante; não que jogar board games ou afins tornem as pessoas menos maduras, mas o problema encontra-se no simulacro acerca do jogo, onde estão encobertos os os conflitos dos “casais”: Max e Annie têm  certa discordância em dar mais um passo na relação ao terem um filho,  Ryan (Billy Magnussen) tem problemas profundos com relacionamentos duradouros, Kevin e Michelle (Lamorne Morris e Kylie Bunbury, respectivamente) pontuam fissuras no relacionamento, enfim, todos que estão no grupo (ou não foram convidados) têm pendências a serem resolvidas, e o jogo torna-se uma rota de fuga.

Em uma visão mais macro, observe o modo que Max e Annie lidam com os seqüestradores no bar antes de saberem da malfadada trama e como age todo o grupo na engenhosa cena do jogo de “bobinho” (aqui na Bahia chama-se assim) com o ovo Fabergé, isso já sabendo que tudo é realmente “sério”. Independente da existência da seriedade, o modo cômico de resolver os problemas reforçam a crítica pontuada acima.

Mas sim, é um filme de comédia e existem momento bem engraçados, inclusive nas gags e piadas de situação, onde Bateman já provou que  manda bem (é só ver os filmes da franquia Quero matar Meu Chefe – crítica aqui e da sequência aqui). A química com McAdams funciona e ela é responsável por momentos extremamente hilários, como o “tutorial para retirar uma bala”.

Ainda sobre jogos, é uma boa sacada o uso de referências que a direção de John Francis Daley e Jonathan Goldstein inserem: como exemplos, a fotografia dos planos gerais (onde o bairro donde o casal protagonista mora lembra muito o tabuleiro de Jogo da Vida), o modo que a câmera é posicionada em cenas de perseguição tal qual um GTA, e logo quando conhecemos Max em que a palavra “morte” está projetada em sua sexta num claro sinal de “quem sou eu” (idem para o aviso dado quando falei em “bobinho”).

A montagem também desempenha um papel importante num filme com tantas reviravoltas, de forma dinâmica e extremamente econômica no primeiro ato, demonstrando que Edgar Wright foi uma referência deglutida com gosto. Já a trama perde força no meio para o fim, onde o humor vai diminuindo e torna-se um um mezo filme de ação.

A Noite de Jogo, mesmo com seus problemas transmite uma mensagem sobre as agruras da vida adulta e da necessidade de coragem para seguir em frente, isso de maneira bem simples. Esse jogo pode ir sem medo porque não é nenhum Eurogame.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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A Noite do Jogo


PAÍS: EUA
CLASSIFICAÇÃO:
DURAÇÃO: 100
ESTREIA: 14 de agosto de 2018
DIREÇÃO: John Francis Daley, Jonathan Goldstein
ELENCO: Jason Bateman, Rachel McAdams, Billy Magnussen, Sharon Horgan, Lamorne Morris, Kylie Bunbury, Jesse Plemons, Danny Huston, Michael C. Hall e Kyle Chandler
SINOPSE: Bateman e McAdams estrelam como Max e Annie, cujas noites de jogos entre casais ficam um pouco mais interessantes quando o carismático irmão de Max, Brooks (Chandler), organiza uma festa de assassinato e mistério, com direito a bandidos e agentes federais falsos. Então, quando Brooks é sequestrado, tudo faz parte do jogo... certo? Quando os seis jogadores extremamente competitivos se propõem a resolver o caso e vencer o jogo, eles descobrem que nem o “jogo” nem Brooks eram o que aparentavam. No decorrer de uma noite caótica, os amigos ficam cada vez mais envolvidos, à medida que cada reviravolta leva a um rumo inesperado. Sem regras, pontos e sem saber quem são todos os jogadores, este pode se tornar o jogo mais divertido de suas vidas... ou fim de jogo.