Stranger Things – 2ª Temporada

Stranger Things – 2ª Temporada

Stranger Things, série da Netflix que veio com uma proposta de reencarnar as tramas aventurescas de filmes e contos de Steven Spielberg, John Carpenter e Stephen King veio na primeira temporada como quem não queria nada e arrebatou fãs no mundo inteiro. Já essa segunda viagem à cidade de Hawkins e seus mistérios chegou com pompa e circunstância, inclusive com compra em espaço aberto na TV. E o segundo ano da série repete os feitos da primeira e expande o universo de paranóia, dimensões alternativas e experimentos com crianças demonstrado no ano anterior.

Os plots se amarraram à trama central como uma ataque inteligente em uma partida de RPG, onde flanquear o inimigo é muito mais efetivo.

Um ano após os eventos do sumiço – e retorno – de Will (Noah Schnapp), os habitantes da cidade tentam cicatrizar suas feridas: Dustin (Gaten Matarazzo), Lucas (Caleb McLaughlin), Mike (Finn Wolfhard) e o próprio Will tentam levar suas vidas, mas o último vem sofrendo com visões aterradoras do mundo invertido, dimensão que tem uma ligação profunda com Eleven (Millie Bobby Brown) mantida em sigilo pelo Xerife Hooper (David Harbour). O trio de adolescentes, Jonathan (Charlie Heaton), Nancy (Natalia Dyer) e Steve (Joe Keery) ainda são afetados com o desaparecimento de Barb (Shannon Purser, que tornou-se praticamente um Bobba Fett da trama) e são atormentados pela culpa de não poder contar aos pais da garota sobre sua morte. Essas são as peças no tabuleiro.

Os irmãos Duffer sabiamente resolveram alguns problemas da temporada anterior e mesmo alinhados com a proposta, conseguiram acrescentar temas contemporâneos à trama, como machismo, bullying e racismo, mas não de forma panfletária. E auxiliados pelo sucesso, os efeitos visuais são muito mais interessantes, com planos abertos que ressaltam a direção de arte e a utilização de cores quase neons em meio de ambientes sombrios que evocam os anos oitenta ao mesmo tempo que sinalizam algo não atrelado à realidade dos personagens.

Se o primeiro ano tinha peculiaridades com Chamas da Vingança (1984), Conta Comigo (1986) e E.T. (1982); agora Aliens: O Resgate (1986) sinalizados nas gosmas dos túneis, no formato da cabeça do Monstro das Sombras, os demo-cães e no ataque massivo dos soldados; e A Morte do Demônio (1981), na várias cenas de porões, shacks, e a clássica movimentação de câmera criada por Sam Raimi perscrutando a floresta. Outras simbólicas estão na forma do laboratório (um enorme X na cidade) e no primeiro “lar” de Eleven, onde o coelho de Alice no País das Maravilhas na parede representa muito bem onde a personagem está ao investigar sua vida pregressa.

Os plots se amarraram à trama central como uma ataque inteligente em uma partida de RPG, onde flanquear o inimigo é muito mais efetivo. O resultado disso foi o “apagamento” de Mike, mas como vantagem, acrescentou camadas em personagens novos e antigos além de amplificar os relacionamentos: Lucas teve sua vida familiar apresentada, outrora negligenciada na temporada anterior. Com isso ganhamos sua ótima irmã pentelha. no mais, o seu relacionamento com a novata do grupo, Max (Sadie Sink), trabalhou com sua ideia de ser o contraponto de Mike nas decisões, já que agora ele era o responsável por fazer outra pessoa crer nos eventos e essa função o tornou chato para uma fatia do público. A entrada de Max traz consigo seu irmão, Billy (Dacre Montgomery), que toma o lugar de Steve como Bully, mas assim como o primeiro, contém camadas que não o deixam no panorama de “apenas” um novo cara mau.

Tal qual Lucas e Max, as duplas foram bem utilizadas na condução das narrativas: Dustin manteve sua posição como alívio cômico, mas teve espaço para posicionar suas inseguranças e tecer diálogos interessantes com Steve; os traumas de Hopper sobre a perda de sua filha foram aflorados na sua relação paternal com Eleven (agora Jane); Nancy e Jonathan finalmente se acertaram, e a célebre – porém breve – entrada de Bob, que é uma homenagem por si só pelo fato do ator Sean Astin estar em Os Goonies (1985) e sua relação com Joyce Byers (Winona Ryder) ser tão legal. E Mike tem sua atenção retomada no final, quando encontra-se com Eleven.

Erros novos e antigos surgiram: a suspensão de descrença diante do perigo ainda é um problema charmoso, presente em tantos filmes da década homenageada. Mesmo sendo uma série ágil, os eventos de Eleven na cidade não aborrecidos e servem para demonstrar a incompetência do “Governo” em deixar alguns dos seus experimentos fugirem, e possivelmente será uma das amarras da próxima temporada. Engraçado que esse episódio em questão, A Irmã Perdida, apesar de destoar dos demais, remete muito ao universo dos X-Men nos quadrinhos criado por Chris Claremont nos anos 80, onde o foco era nos relacionamentos, casando com o que foi dito anteriormente.

Com quase todas as pontas amarradas e um final mais feliz que o anterior, Stranger Things provavelmente entra no mesmo hall de séries líderes da Netflix, e a coesão em que o universo é criado mostra que, mesmo embebida em referências de peso, quão sólida sua história é que importa. 

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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