On My Block – 1ª Temporada

On My Block – 1ª Temporada

A Netflix é generosa com suas séries de comédia dramática; com base nas que assisti (o que está se tornando uma atividade extremamente difícil pelo brutal escoamento de produções distribuídas/originais), o escalonamento de momentos felizes com tragédias é efetuado com devido esmero em várias produções, desde Orange is The New Black, provavelmente a estrela mais brilhante do gênero na grade a emissora; mas podemos chegar em obras menos conhecidas como Degrassi Next Class, uma espécie de Malhação com toque de série musical da Disney que quase termina num tiroteio em massa – para se ter noção.

No início de Março, On My Block, que entra no sub gênero de comédia dramática de amadurecimento, chegou sem muito alarde e mostrou personagens extremamente carismáticos em uma trama sem muita imaginação, mas com o seu charme: sabe quando o básico é feito de modo bem feito? É possível ver os plots adequadamente encaixados, como tijolos, em toda a narrativa.

Não tem como ultrapassar o carisma afetado de Ruby

Em resumo, a série criada por Eddie Gonzalez (roteirista da aclamada série Empire e do último filme sobre o rapper TuPac – All Eyez on Me)Jeremy HaftLauren Iungerich são as agruras de quatro adolescentes vivendo num subúrbio em Los Angeles, onde a amizade começa a tomar formas distintas enquanto crescem. E começa daí seus diferenciais: primeiro que o bairro onde os jovens vivem tem como maioria hispânicos, então é agradável ver outra perspectiva senão a do negro periférico americano; e segundo que a multietinicidade dos personagens dá mais cor à produção em algumas momentos do roteiro, que embora pincele no tema, sabe que o crescimento dos adolescentes em meio à violência é o foco.

Na série conhecemos Monse (Sierra Capri, em seu primeiro trabalho), Ruben/Ruby (Jason Genao, o pequeno Rictor em Logan), Cesar (Diego Tinoco, da série Teen Wolf) e Jamal (Brett Gray, de  Law & Order: Special Victims Unit): todos eles com suas tramas pessoais bem definidas que em maior ou menor instância se conectam em torno de um bem maior: manter a família (como eles chamam a amizade entre eles) unida.

Monse tem a meta de encontrar sua mãe, que saiu de casa quando ela era pequena, e a interpretação de Sierra em primeiro momento é repetitiva, funcionando só em modo emburrado; a medida que a série segue, as motivações da personagem são entendidas e a atriz vai se soltando. O papel de Diego Tinoco inicialmente tem maior urgência, pois é o vetor da violência no grupo, já que foge do legado familiar de virar membro de gangue. Jamal muitas vezes me remeteu à psiquê de Melman – sim, a girafa da franquia Madagascar – e tem a jornada mais fabulesca e fraca na sua procura de um misterioso tesouro enterrado por um falecido líder de gangue pela cidade.

E temos Ruby, onde vale a pena separar um espaço para o personagem de Jason Genao.

Embora Jamal tome alguns momentos do alívio cômico da série e até Jasmine (Jessica Marie Garcia, da série da Disney Liv and Maddie) divirta nesse ponto como a “amiga inconveniente e sem noção” e uma fábrica de memes ambulante, não tem como ultrapassar o carisma afetado de Ruby, de forma que você sabe que o tom tá um pouco acima, mas possivelmente você conhece alguém como ele e sente afeição. A construção do personagem é tão interessante como o responsável pela “junção” dos amigos que ele rouba a cena com seu jeito metódico e de latin lover – com um ótimo timing de comédia. Não à toa, é duplamente chocante o término da primeira temporada, uma vez que a meta do personagem é diretamente afetada pelos eventos, assim como Olivia (Ronni Hawk, de Stuck in The Middle) outro fator desestabilizador da amizade dos quatro jovens. 

A fotografia não é inspirada: basicamente segue os mesmos princípios de uma sitcom, tal qual sua direção homogênea e dividida por Steven K. Tsuchida (também diretor da cancelada Hatters Back Off! da Netflix), Lauren Iungerich e Ryan Shiraki (ambos dirigiram Awnkard.). Já a trilha tem um fabuloso tema cantado por DejLoaf (Changes, que você confere aqui).

Com o cancelamento de Everything Sucks!, On My Block é uma aposta interessante: não é anos 90, mas com personagens bem mais amáveis.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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