Mindhunter – 1ª Temporada

Mindhunter – 1ª Temporada

Dois dos principais eventos que tiraram a inocência do Flower Power trazido pelos hippies na transição das décadas de 60 para 70 nos EUA com certeza foram o incidente em Altamont, onde um homem foi assassinado em pleno show dos Rolling Stones e as mortes perpetradas a pedido de Charles Manson por sua “família”. Os dois incidentes apresentam facetas do que há de terrível no homem, e chega a ser perturbador saber que mesmo desagradável, entender o porquê dessas raízes da violência na psiquê humana tem um toque fascinante. E esse é o campo de Mindhunter, baseado nas memórias de John Douglas, profissional aposentado do FBI que viu a evolução da abordagem de casos violentos e cujo trabalho inspirou filmes como Silêncio dos Inocentes.

A fascinação de entender a mente e o que a leva a efetuar coisas deprimentes é o que move Holden Ford (Jonathan Groff de Sniper Americano) na série, um negociador do FBI que a partir de um incidente “feliz”, é enviado a Quântico (sede do órgão) afim de ensinar outros profissionais a lidarem com situações envolvendo reféns. Curioso em conhecer como uma mente perturbada funciona, Ford pesquisa nos meios acadêmicos e da instituição, angariando as parcerias de Bill Tench (Holt McCallany, de Lights Out), um professor de Estudos Comportamentais e Wendy Carr (Anna Torv, da série Fringe) mestra da universidade de Boston. Juntos, eles semeiam a revolução no campo criminalístico no que diz respeito a perfis e motivações de serial killers (terminologia ainda não inventada na época).

Wendy Carr (Anna Torv)

Creio que uma boa parte dos expectadores poderá decepcionar-se ao ver que o ritmo da série é lento como Mad Men se encontrasse com The Killing: a produção procura envolver o espectador nos estudos de comportamento dos protagonistas e como aquelas relações afetam suas vidas pessoas; é entender aonde a sanidade vai ao confrontar-se diariamente com os elementos mais doentios do período. É uma série contida, organizada, econômica nas emoções e tensa, como um barbante esticado. E a dificuldade da produção será essa em criar o seu público, já que foge do requentado esquema procedural (o crime do episódio) e entrega uma narrativa linear, a não ser pelas cenas iniciais que funcionam como um quebra-cabeça ainda sem explicação.

Ciceroneado por David Fincher (também produtor executivo) os demais diretores realizam um trabalho sem invencionices, seguindo a toada do também diretor de Zodíaco (2007) – praticamente uma produção-irmã por situarem-se mais ou menos no mesmo período e seguirem o mesmo clima – e com espaço para brincadeira com outra produção do diretor, Seven, com uma referência ao filme de 1995: “o que tem na caixa?”.

A dinâmica do trio é interessante e conflituosa, mesmo que complementar: em vários momentos na sala em que preparam seus estudos, a equipe é posta na mise-en-scène de forma triangular (dois de lados oposto e um personagem mais alto no centro) ou traçando uma linha reta, mostrando Bill como o ponto de encontro entre o instinto e empatia de Holden e a precisão teórica e cerebral de Carr. Não à toa, Bill serve como o farol para traduzir ao pessoal “de fora” o que aquelas novas terminologias atiradas pelos dois membros significam. Ao tratar-se de um tema tão pesado, o clima da série não poderia ser mais sombrio, com uma paleta extremamente reduzida de cores e com o uso de tons verdes e azuis para quebrar a dualidade de bem ou mal; essa escolha de navegar em tons cinzas demonstra a mudança do ângulo dos estudos criminalísticos, que abordavam uma visão lombrosiana (onde o “mal” nasce com o indivíduo, aqui de forma simples) para o “mal” como algo que pode ser construído através de comportamentos externos.

Cameron Britton e Jonathan Groff

No decorrer dos episódios vemos a degradação de Holden e Bill; o primeiro com uma interpretação inicial de fala mansa, vai sendo tomado por uma arrogância mordaz que o faz afastar-se da sua namorada (Debbie, vivida pela atriz Hannah Gross de Marjorie Prime) até despencar no último episódio. Uma vez que os casos do FBI são a ponte da conversa dos de Debbie e Holden, é prevista a forte tendência à ruína que o namoro tomará.

Já Bill tenta segurar as pontas mantendo distância e um certo horror de como o parceiro consegue aproximar-se dos assassinos durante as entrevistas, ainda mais que o mesmo não consegue lidar com seus demônios internos e o reflexo deles representado pelo seu filho de seis anos que não se comunica. E Carr, embora não vá a campo como seus colegas, ao abandonar a universidade para juntar-se ao grupo, também evade dos academicismos e sua vida pessoal torna-se a tentativa de conquistar um gato na lavanderia.

Como é baseado em histórias reais, não poderiam faltar os assassinos notórios da época como Ed Kemper (Cameron Britton), Jerry Brudos (Happy Anderson, da série Gothan), Monte Rissell (Sam Strike), Gene Devier (Adam Zastrow, de Santa Clarita Diet) e Richard Speck (Jack Erdie). Aqui destaco o trabalho maravilhoso de Britton ao performar o maníaco Kemper, que mantém uma doçura e mocidade mesmo ao confessar a decapitação da mãe, alem de ser responsável por um dos momentos-chave do último episódio.

Em sua primeira temporada Mindhunter tem potencial de ser memorável, porém com altas chances de amargar a máxima “sucesso de crítica e fracasso de público”. Resta ver se a Netflix, cuja tesourada anda passando tão forte nas suas produções, vai comprar essa briga.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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