Luke Cage – 1ª Temporada

Luke Cage – 1ª Temporada

Recentemente vi uma entrevista do diretor Quentin Tarantino no Yahoo sobre Luke Cage enquanto falava d’Os Oito Odiados, seu último filme na ocasião. Com base no personagem Luke Cage, inserido em Jessica Jones, Quentin revelou não ser muito fã da releitura do Herói de Aluguel por causa do esfarelamento da cultura negra, tão forte naqueles quadrinhos da década de 70. Chego a entender até certo ponto, mas creio que para falarmos sobre a nova série da Netflix/Marvel é necessário, como o próprio Luke diz no último episódio, “é preciso voltarmos um pouco antes de andarmos para frente. Sempre”.

O Blaxploitation:
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Em muitas críticas sobre a produção espalhadas pela internet afora, o blaxploitation foi citado como um dos elementos-chave para o êxito da série. No desenrolar da trama, percebi o oposto: o distanciamento e a visão crítica do sub-gênero que deu voz à temática da cultura negra americana nos anos 70 foi a diferenciação criativa. Cheo Hodari Coker, o criador, apostou alto em não utilizar de maneira enfática as referências, produzindo uma série que não chega a ser mais adulta que Jessica Jones, mas aqui a mais embalada de cultura e quiçá, de crítica. 
Luke Cage bebe de fontes mais finas, perceptíveis nos filmes de Spike Lee e John Singleton – ou até em obras recentes como Creed e Straight Outta Compton – mas pincelando elementos aqui e ali do sub-gênero de outrora – os personagens Turk (Rob Morgan, já visto em Demolidor) e Kid Cascavel (Erik LaRay Harvey) viveriam tranquilamente em uma película setentista.

Cultura e crítica:
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Várias entidades da cultura negra americana aparecem na série, mas para grande parte do público – não-americano (e não-negro) – despontam como ilustres desconhecidos: Charles Bradley, The Delfonics, Sharon Jones (embalando uma linda canção que emoldura os minutos finais da série),  Method Man (Wu-tang Clan), Dapper Dan (famoso alfaiate do Harlem), entre outros.

A série definitivamente tem o melhor roteiro das produções Netflix / Marvel: coesa, dinâmica, com todos os episódios avançando na construção de um ou outro personagem e com foco na história central. Assim como foi possível inserir coisas novas na trama, o roteiro não se abstém das críticas ao mundo real e toca na ineficiência da lei perante o crime no Harlem, bairro que torna-se um dos personagens da trama. O abuso policial contra negros torna-se pauta – os incidentes de Baltimore, Charlotte, Tulsa entre outros ainda ecoam.

Quadrinhos:
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Os fãs ficarão bem felizes com as referências das HQs e a pitada de ironia do quão datados são certos elementos do cânone – a cena do uniforme é uma passagem bem engraçada, mas o fan service da tiara e dos braceletes consegue ser épico sem ser ridículo. E os dois modos fluem bem no mesmo episódio.

Ainda pontuando as relações com os quadrinhos, temos a situação do braço de Misty Knight (Simone Missick), o bordão “Sweet Christmas”, o apelido Power Man (alcunha do personagem nos seus primeiros anos) e o alinhamento com o selo adulto da marvel, a linha Max – embora o norte seja o Cage atualizado pelo escritor Michael Bendis; algumas referências são mais sutis, como a origem do personagem que em certa conversa com Claire Temple (Rosario Dawson, personagem do universo de Luke, mas na TV é um amálgama com a real Enfermeira Noturna) o protagonista alega sua origem de Chicago.

O elenco traz também Mahershala Ali (House of Cards), personagem que imbui tensão na tela (a cena do seu “Boca de Algodão” na barbearia é um dos pontos altos), ao mesmo tempo que as motivações para tal são bem claras e justificadas. O mesmo é possível dizer de sua prima escorregadia Marion (Alfre Woodard), personagem que é adorável odiar por escancarar o cinismo da política. Até nos personagens funcionais como o capanga Zip (Jaiden Kaine), as motivações simples de ascensão na cadeia de poder são desenvolvidas.

Misty Knight incorpora a policial do sistema, mas começa a desacreditar nele aos poucos, traição após traição; e Missick equilibra a esperada antipatia que um personagem desses despertaria com a torcida pela mesma. Interessante o uso da mesma linguagem meio precognitiva para desvendar os crimes, presente de modo bem semelhante na série Hannibal pelo personagem de Hugh Dancy. É importante também citar a parceria que Simone faz com Rosario Dawson, mostrando duas mulheres que sabem se impor e por muitas vezes sobressaem ao protagonista.

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Mike Colter faz jus ao personagem: seu Luke tem presença, e é possível entender o conflito entre ser ou não um herói ao mesmo tempo que é acusado por todos os lados, que traz uma aula estrondosa sobre ser um herói negro, que fala com o seu público, que entende as falhas do sistema principalmente para sua gente; diferente de um herói que torna-se negro (por exemplo Nick Fury, embora seja muitíssimo bem interpretado por Samuel L. Jackson, poderia ser qualquer um): mais empático, impossível. E aí aparece a diferença entre Luke Cage e Matt Murdock (protagonista da série ) com mais fulgor no viés religioso presente nas duas séries: embora os dois lutem por justiça, os argumentos religiosos presentes em Cage abarcam o rebanho enquanto os embates de Matt são individuais.

A abertura casa principalmente com os créditos de Demolidor, projetando sobre o herói o Harlem, palco dos eventos: utilizando o tom amarelado reforçando a rima cromática (vermelho, Demolidor e púrpura, Jessica Jones). Como a primeira série do Universo na Netflix que sai da Cozinha do Inferno, é muito mais perene a ideia de comunidade no Harlem, com as pessoas se cumprimentando, referenciando umas às outras, trocando amenidades e afins; a irmandade presente contribui para que a rua seja o melhor ringue para a luta final.

Luke Cage consegue pegar todos os erros atuais das séries da Marvel / Netflix e consegue saná-las com charme, criando uma história coesa e que retrata o seu tempo. Espero que a próxima atração para 2017, Punho de Ferro, consiga transpor essa barreira à prova de balas. Será um desafio e tanto.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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