Game of Thrones – 7ª Temporada

Game of Thrones – 7ª Temporada

A série de maior hype da HBO vai chegando a seu crepúsculo. Após seis temporadas extremamente regulares e com momentos altos na história do entretenimento televisivo dos últimos anos, Game of Thrones está chegando ao fim de forma exemplar em um universo em que emissoras querem apertar as fórmulas cada vez mais, já que o sumo exaurido não é suficiente – como The Walking Dead.

GoT sempre foi uma série boa alicerçada por uma complexidade proporcionada pela quantidade abissal de personagens e defendida por uma muralha constituída dos calhamaços formados pelos livros; particularmente menor (sete no lugar dos dez episódios convencionais) e 100% livre da obra de George R. R. Martin, a sétima temporada abandonou o formato já estabelecido: de desenvolvimento da narrativa nos oito capítulos até explodir no catártico nono episódio (vide Guerra dos Bastardos, morte de Eddard Stark, o ataque dos Baratheon a Porto Real, o Casamento Vermelho entre outros eventos). No lugar, intensificou a ação, promovendo batalhas náuticas e jogos de guerra entre Cersei (Lena Headey) e praticamente todo o elenco ainda vivo.

 

Lena Headey (Cersei Lannister) – Photo Helen Sloan HBO

Antes de falar das mudanças radicais do roteiro, urge lembrar que GoT não é adulta pelas cenas de sexo e nudez feminina (que foram criticadas e com uma resposta de um pênis enverrugado em cena); a série demonstra maturidade muito mais pelas complexas relações humanas abarcadas pela política. GoT é um marco pela constatação que o tema de fantasia medieval – sempre amarrada à narrativas “infantis” como ‘Caverna do Dragão’, jogos de RPG e ‘Senhor dos Anéis’ – alçou o status de entretenimento adulto; e nessa temporada, toda a construção do seu teor político é penalizada ao reduzir-se em aventuras de capa e espada.

A liberdade oriunda de uma base inexistente, mesmo com a supervisão do autor, mostrou uma precariedade do roteiro que, embora recorra a pontos de temporadas anteriores para provar o sangue Targarien de Jon Snow (Kit Harington), bate nesse ponto de modo de forma a  subestima a inteligência do espectador: é o livro em posse de Samwell (John Bradley-West), é a informação de Bran (Isaac Hempstead Wright) ao vislumbrar a Torre da Alegria, é o toque de Jon em Drogon … e entendo que para os personagens as provas sejam necessárias, mas o modo apresentado a quem assiste é deveras expositivo. Outro personagem malhado por demais foi o de Tyrion Lanister (Peter Dinklage): considerado um dos personagens mais inteligentes e preferidos do público, hoje é a Mão mais incompetente, confirmando que tal função sempre foi uma maldição em toda a série.

 

Muralha das Lamentações

Eu não vou falar de:

– Corvo supersônico (embora o episódio ‘The Dragon and the Wolf’ dê uma desculpa conveniente para o atraso);
– Dragões hipersônicos;
– Do plano idiota de captura – mesmo dando certo ainda é idiota;
– Da crueldade em deixarem Thoros de Myr (Paul Kaye) a 2 metros de distância ferido enquanto a caravana passou a noite juntos e quentinhos;
– Da ideia nobre e ‘genial’ de dar sua espada quando vai precisar dela em algum momento;
– Em levar todos os seus trunfos para um perigo desconhecido;
– De cavalos que só cabem uma pessoa;
– Onde acharam correntes daquela espessura.

Jorah Mormont (Iain Glen), Jon Snow (Kit Harington) e Tormund (Kristofer Hivju) – Credito HBO

Com minha suspensão de descrença tão alta quanto a posição da personagem da Sandra Bullock em Gravidade (2013), vou falar de um roteiro atrapalhado, corrido, que preferiu desembocar numa ação tresloucada ao invés de respeitar as regras que impôs durante seis temporadas. E o ápice foi o penúltimo episódio ‘Beyond the Wall’.

Então comecemos com a trupe que vai para a missão suicida de capturar um dos desmortos afim de provar para Cersei qual é o maior perigo de Westeros no momento. Os diálogos cheios de piadinhas são funcionais para que o público sinta-se mais próximo dos aventureiros. Se o evento estivesse em uma das primeiras temporadas, com certeza metade da caravana morreria; no lugar, algumas faces desconhecidas e Thoros de Myr, remetendo a um caso recente nos cinemas: Alien Covenant (2017),  que padeceu do mesmo mal com seus personagens.

Sobre o personagem de Paul Kaye: quem liga para alguém que não teve 10 minutos de tela durante toda a série? Aí que GoT confunde frustração com quebra de expectativa. E toda a dramaticidade da morte é desperdiçada: se o personagem perecesse após o ataque, o peso seria maior. Idem para Tio Benjen (Joseph Mawle), o segundo ‘Deus Ex Machina’ em uma hora e meia de episódio, porém como diria um trecho do livro ‘Elite da Tropa’: se não tem corpo, não tem crime – idem para a “morte” de Tormund (Kristofer Hivju) nos últimos minutos do episódio final. E para adornar o episódio uma incoerência histriônica do comportamento de Daenerys (Emilia Clarke), onde, ao invés de enlutar-se devido à morte de um dos seus “filhos”, compadece ao lado de Jon Snow. E com tantas linhas afunilando a descoberta da linhagem de Snow, quem a narrativa quer enganar com supostos sacrifícios do agora protagonista?

Emilia Clarke (Daenerys Targaryen) e Kit Harington (Jon Snow) – Photo Helen Sloan HBO

Mas também tem coisa boa

Mesmo com os tropeços do roteiro, existem momentos que não ficaram ofuscados como a presença marcante do poder de fogo de Daenerys no quarto episódio, ‘The Spoils of War’, onde GoT acerta na criação de um clima de guerra e produção (que sempre foi o forte da série). E de outro lado, a decisão do roteiro em acelerar criou mais cenas empolgantes.

A série dá brecha para momentos estilísticos na montagem (que realmente me entristeceu por não seguí-los nos demais) nos primeiro e segundo episódios, com o uso de raccords, alternando entre alguma comida e algo nojento (comumente ligado a algo que Samwell Tarly executava na Cidadela como limpar excrementos e as chagas de Jorah).

Sansa Stark (Sophie Turner) e Arya Stark (Maisie Williams) – Credito Helen Sloan_HBO

Embora com uma menor qualidade do que as temporadas anteriores, os diálogos funcionam num contexto micro com as relações de Sansa (Sophie Turner) e Arya (Maise Williams), e de uma forma mais interessante, com bons atores como Dinklage e Headey, com espaço para detalhes sutis – o modo que Tyrion vai até a bebida após Cersei poupar sua vida demonstra o tamanho do blefe que realizou sobre a importância da sua vida perante a irmã. E entre as atuações interessantes está a de Petyr ‘Mindinho’ Baelish (Aidan Gellen), sobrevivente desde a primeira temporada, um dos responsáveis pelo clima de intrigas da série e uma das mortes que realmente valeu a pena, já que cingia toda a parafilia do personagem por Sansa a partir da obsessão por Catelin Stark (Michelle Fairley).

Sobre as expectativas, a lista de Arya (que há muita gente para ser morta) e a situação dos Greyjoy são pontos a favor de que a mesma correria vista na sétima temporada estará presente na oitava. Fazendo jus ao fenômeno que a fez ser um evento, GoT entregou uma temporada aceitável assumindo-se como o ‘Super Bowl da HBO’. Com o pão e circo entregues, resta esperar se o gosto do espetáculo fará com que o último ano entregue fatias com mais sustança; afinal, alimentar coração e mente nunca fez mal a ninguém.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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