Cobra Kai – 1ª Temporada

Cobra Kai – 1ª Temporada

Na finada série cômica da HBO Hung, onde um ex-professor de educação física (interpretado por Thomas Jane) tem que se prostituir para ganhar a vida, o atual marido da sua ex-esposa, um nerd na época colegial, diz em um dos seus diálogos que os esportistas de ontem são os nerds de hoje. Isso realmente faz sentido hoje, num contexto em que as atividades mais, digamos, intelectuais trespassaram as físicas, refletidas nas novas idealizações de sucesso como Mark Zuckerberg, Elon Musk entre outros. Porém, algumas coisas não mudam tanto, como a nossa visão em acolher os mais vulneráveis e o interesse por revivals, mostrando o porquê de produções como Ash vs Evil Dead, Kung Fury, GLOW, Stranger Things entre outros retornam para a ribalta. E aqui estamos diante de Cobra Kai, produção do braço de streaming pago do YouTube – YouTube Red – que se retroalimenta após 30 anos do primeiro filme da franquia Karate Kid, onde conhecemos mais sobre o garoto que enfrentou Daniel LaRusso, Johnny Lawrence (William Zabka tanto aqui como no original).

Executando a grande façanha em reunir o elenco do filme de 1984 (Ralph Macchio também retorna), a série manteve elementos oitentistas como a trilha recheada de hard rock tal qual os filmes da época e um roteiro simples que assemelha-se a muitas produções do tempo. Aqui vemos os desenlaces de pouco mais de 30 anos após o filme de 1984; Johnny não deu certo na vida e é um beberrão separado que vive de bicos e preso aos fantasmas do passado, além de manter pouquíssimo contato com o filho Robby (Tanner Buchanan, o Leo Kirkman de Designated Survivor. Já Daniel conseguiu se firmar e é um grande empresário do Valley, com esposa e filhos lindos, tal qual comerciais de margarina. Mas a vida dos dois cruza novamente quando Miguel (Xolo Maridueña, do retorno de Twin Peaks), um vizinho de Johhny é ajudado pelo ex-membro do amaldiçoado dojo Cobra Kai a se livrar de uma gangue de adolescentes. Lawrence passa a treinar o adolescente, reabrindo o grupo de karatê que foi o pesadelo de LaRusso durante sua adolescência.

Não se levar à sério mas fugir de ser um pastiche é uma das vantagens de Cobra Kai, que tornando as coisas menos maniqueístas dá uma pequena sofisticação ao que claramente é concebido como um projeto para simples entretenimento. Sabendo que Johnny está longe de ser o cara que podemos chamar de herói, deixar os personagens com suas falhas e benesses expostas torna-se um poderoso artifício; e um forte exemplo disso é LaRusso, que vimos sempre como um menino impetuoso e inocente, tem lacunas maiores para seus erros. Não há lado certo na relação entre Daniel e Johnny. Acrescentando ao fato que, tudo bem, são dois atores limitados, porém carismáticos o bastante para manter essa dubiedade.

Carisma é um ponto bem acertado na série, onde é bem difícil desgostar de alguém a não ser que realmente traje o antagonismo como a gangue de bullies que ameaçam Miguel; Buchanan é o único ponto fora da curva, uma vez que insere um peso dramático na série (maior até do que ela realmente necessita) e, por conseguinte, destoa dos demais. Mesmo com base em temas oitentistas, o roteiro tem cuidado em criar mulheres fortes como a filha de Daniel, Amanda Larusso (Mary Mouser, da série Scorpion) e Aisha Robinson, vivida pela estreante Nichole Brown (que gostaria de ver em mais produções após a série).

A fluidez do roteiro faz com que a história se desenrole sem sobras, independente da entrada de mais personagens no universo – muito devido aos cerca de 30 minutos para cada episódio – que dá mais corpo para a rivalidade, e tem espaço para abordar temas mais sérios como o bullying. O tema já evidenciado no filme de 1984 ganha contrastes contemporâneos, agora também com sua versão virtual e incorporado pelo núcleo jovem, que brilha muitas vezes servindo de escada para os chistes politicamente incorretos de Johnny. Os conflitos são bobos e até previsíveis dada a quantidade de opções, como no torneio que ocorre no último episódio (sim, tem torneio novamente – e com golpe louco mais uma vez). As questões de paternidade e responsabilidade, embora desenvolvidos de forma menos profunda cumprem seu papel e tem efetividade no roteiro.

Ter a liberdade de inserir flashbacks dos filmes ao longo dos 10 episódios e trechos da trilha original é também muito recompensante. No final do quinto episódio, chega a esquentar o coração ao ouvir um conselho na voz do saudoso Pat Morita com o seu icônico personagem, o Sr. Miyagi (indicado ao Oscar por melhor ator coadjuvante pelo papel no primeiro filme).

Com um final intrigante – apresentando o que virá a ser o “grande inimigo” da série – Cobra Kai é um guilty pleasure que vale a pena separar aquelas 5 horas de um sábado para ver tudo de vez; leve, divertido e nostálgico, o que poderia ser um desastre descumpre uma das regras do homônimo dojo: eles tiveram piedade.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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