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Publicado por: Edgar Santos | Publicado em 30 abr 2017 | 0 comentário

Cara Gente Branca – 1ª Temporada

Fui estudante no meu primeiro e segundo graus de uma das maiores escolas do meu estado. Em diversos momentos fui o único negro da minha sala. Tive lembranças boas e ruins, mas uma me vem sobre aquele período, especialmente quando transito pelo local: era uma festa de 15 anos. E um dos garotos da classe insistentemente falava “você tá parecendo o garçom”. Insistentemente.

Não lembro da aniversariante, mas lembro do lugar. Da noite. Da pessoa. Do seu nome. E eu ainda não sabia – diretamente – o que era racismo e como lidar com ele. Mas sentia as consequências.

E é por isso e outros eventos da vida, que é complicado falar sobre a nova série da Netflix quando se é negro. Tal fato não impede de alguém branco escrever acerca, obviamente. Mas, aproveitando-se de um dos diálogos de uma das protagonistas Sam (Logan Browning) sobre Gabe (John Patrick Amedori), o seu namorado branco: existem outras camadas que não tem como ele acessar. Sendo assim, torna-se igualmente intimista escrever sobre Cara Gente Branca, produção baseada no filme homônimo de 2014, dirigido e roteirizado por Justin Simien –  também à frente desse retorno.

O criador da série Justin Simien

A partir daqui, spoilers sobre o filme e a série.

De início, a Netflix peca em parte por não oferecer o filme também em seu acervo – tá, isso depende de outros acordos – mas a experiência de ver a série pós-filme é mais rica. A história foca em quatro alunos negros da Winchester University, uma instituição onde o racismo é perpetuado de diversas formas. São eles, Sam White (no filme de 2014, Tessa Thompson), uma aguerrida estudante de cinema que utiliza seu programa na rádio estudantil denominado “Cara Gente Branca” para expor o racismo velado em uma época pós-Obama; Troy (Brandon P Bell nas duas produções), escorregadio filho do reitor que tenta resolver as situações de modo mais político; Lionel (Tyler James Williams no cinema, DeRon Horton na série), um introvertido estudante de Jornalismo que procura – literalmente – seu lugar na instituição; e Coco Conners (Teyonah Parris, cinema; Antoinette Robertson, série), uma garota envergonhada da sua descendência e tenta se infiltrar nos círculos mais poderosos da universidade.

A tensão do filme vai crescendo até desembocar numa festa de dia das bruxas promovida por uma das fraternidades brancas com “temática negra”, ou seja, repleta de blackfaces. Isso resulta em uma guerra entre alunos negros e brancos. E aqui que a série começa.

Cara Gente Branca utiliza-se novamente da sátira para construir sua narrativa e expor as feridas da sociedade americana e, embora a discussão sobre racismo seja o motor, a série entende a necessidade de seguir outros caminhos e apresentar os dilemas pessoais dos quatro protagonistas para aprofundá-los com o público. Não à toa, cada episódio (com exceção do décimo e último) foca em um dos personagens e seu ponto de vista nos acontecimentos. Em suma, todos tem suas justificativas que os tornam mais completos – e complexos: Sam, embora lute pelos direitos dos alunos, volta e meia é repreendida por adversários sobre sua mestiçagem; Troy sofre com a pressão do pai em torná-lo um negro perfeito, acreditando que esta é a melhor forma de não ser atingido pelas mazelas do racismo (que de fato já incide, uma vez que tem que provar-se); Lionel procura encaixar-se no mundo como gay, porém a comunidade negra também mostra-se em diversas vezes homofóbica; e Coco utiliza as armas que tem como uma questão de sobrevivência.

Por isso é tão importante a visita ao primeiro filme: vários diálogos são marcos para entender o tempo e espaço daquele evento. Para os marinheiros de primeira viagem, a série é bem cuidadosa em conduzir o espectador e as referências utilizadas em cada episódio de 30 minutos geram a necessidade de assistir duas vezes só para pesquisar sobre alguns nomes citados, já que fazem parte do contexto norte-americano como Sandra Bland, Treyvor Martin (veja o documentário 3½ Minutes, Ten Bullets), Philando Castille. entre outros nomes e eventos.

Mesmo com o foco na sociedade americana, grande parte dos temas discutidos são conhecidos e caros à realidade brasileira; o método de abordagem utilizando-se da ironia resolve o problema de tudo apenas soar engraçadinho aos ouvidos que nunca tiveram contato com esses questionamentos. Em muitas horas Cara Gente Branca soa explicativa demais para pessoas já engajadas, mas a partir do momento em que vitimismo, racismo como liberdade de expressão e racismo reverso são coisas comumente ouvidas, fica a dúvida se não deveria ser ainda mais clara, lembrando que o teaser da série teve vários comentários negativos citando-o como “racista” – se tiver estômago é só ver no You Tube várias pessoas – brancas – passando vergonha. No texto afiado sobra até para a showrunner Shonda Rymes (“Defamation” é uma paródia da série “Scandal”) e para Quentin Tarantino, já que só porque ele colocou o Jamie Foxx matando racistas não dá o direito dele usar todos os estereótipos negros  possíveis.

Justin manteve o padrão visual do seu longa na série: o clima blasé e score clássico ironizando a Academia (e já introjetando um ar europeizado na instituição); metalinguagem por parte do narrador (Giancarlo Esposito, de Breaking Bad e The Get Down) e gráficas (com referências da Nouvelle Vague ao Blaxploitation); e um dos mais interessantes: a quebra da quarta parede, ocasionalmente disfarçada de diálogo, e outras de forma direta, onde o espectador é compelido a tomar uma atitude. Nos segundos finais da série, a ideia fica bem mais clara; e a famosa frase de Nietzche vem com louvor: “quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.

Como o universo do filme é expandido, há a entrada de personagens de menor destaque para a luz, como Gabe (já citado e o mesmo tem um episódio próprio) e Reggie (interpretado nas duas produções por Marque Richardson) e protagonista de um dos eventos mais pesados por hora nas séries de 2017 (e dirigido por Barry Jenkins, de Moonlight): toda a tensão do personagem e a percepção que nada impede de ter sua vida ceifada por um policial expulsa o espectador da alegoria criada pela série, arremessando-o na realidade. Um baque forte e necessário. E o episódio termina de forma simbólica, com a cruz formada pelo desenho da porta na cabeça do personagem, como um eterno alvo.

Após esse quinto e pesado episódio, a serie segura um pouco as pontas políticas e trabalha com o lado emocional dos personagens, engrenando o plot que acompanhará a segunda – e necessária – temporada. E de preferência com negros incomodando. E cada vez mais.

cara gente branca / comédia / dear white people / drama / netflix / racismo / serie

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